Tudo isso para preparar um processo que, na parte final, culmina com dois desses jovens, de aparência tão inofensiva quanto qualquer um deles, desencadeando na escola um massacre em tudo semelhante ao de Columbine - objeto do documentário premiado com o Oscar 2003, Tiros em Columbine, de Michael Moore.
Sem psicologizar nada nem avançar explicações sobre o comportamento dos dois assassinos, Elefante deixa no ar uma inquietação diferente de Tiros em Columbine - que formulava hipóteses bem claras em torno da gênese da violência na cultura americana. Van Sant foi bem mais modesto. Fechou o foco no universo dos adolescentes americanos de um interior rico e urbanizado, retratando-os como prisioneiros de uma ratoeira que, mesmo sendo dourada e confortável, aprisiona-os num mundo estreito de regras e falta de participação e perspectivas que alguns, como os dois garotos, pegam como senha para explosões insanas como essa. Elefante não se propõe a dar respostas. Mas, ao confiar tanto nos seus intérpretes, parece chegar bem perto da alma adolescente, de uma maneira mais ampla e sensível do que Larry Clark, em trabalhos como Kids, Bully e Ken Park. Em Cannes/2003, onde venceu a Palma de Ouro e o troféu de melhor diretor, Van Sant não negou que o título tem mesmo alguma relação com o paquiderme que é o símbolo do Partido Republicano, do presidente George W. Bush. Mas não fica nisso. Para Van Sant, o elefante é também o símbolo desse gigantesco mal-estar que percorre todo vazio da cultura americana neste momento e que a maioria das pessoas finge nem ver. "Ninguém fala deste 'elefante' na sala de jantar", sintetizou o diretor. O distanciamento do filme foi, na visão de Van Sant, uma fórmula que considerou mais cabível para "fazer a platéia sentar e observar, ao invés de uma construção tradicional de personagens que os jogasse na história". E arrematou: "Não quis explicar nada. Tenho minhas próprias idéias, claro, sobre os motivos pelos quais tudo aquilo ocorreu em Columbine e outros lugares. Mas queria deixar no filme o espaço para que o público incluísse suas próprias explicações". Cineweb-19/5/2003
Gus Van Sant, que tem uma carreira pontuada por altos (Drugstore Cowboy, Um Sonho sem Limites) e baixos (a refilmagem de Psicose) faz um mergulho vigoroso no universo adolescente. Com um elenco de novatos, que ele filma com um distanciamento peculiar, reconstitui o universo de uma escola de classe média alta em sua terra natal, Portland, refinando o olhar para esmiuçar o cotidiano dos jovens, suas manias, futilidades, namoros, problemas com a autoridade, conversas banais, com uma riqueza de detalhes que aproxima o filme de um tom quase documental.
