20/06/2026
Documentário

Limiar

Em seu documentário, Coraci Ruiz acompanha o processo de transição de seu filho, que adota o nome de Noah. Enquanto descobre novas manifestações da identidade e sexualidade humanas, ela também medita sobre as transformações que o país atravessou nos últimos anos.

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Limiar, de Coraci Ruiz, é um documentário sobre transformação e a capacidade do ser humano em se adaptar a elas. Ainda no começo do filme, a própria diretora diz “quando eu era pequena, odiava ter um nome diferente, mas, depois, aprendi a gostar, porque ficava marcado na memória das pessoas.” Esse sentimento é o que parece permear todo o longa: como gostar de algo que, num primeiro momento, soa diferente (e que, no fundo, nem é)?
 
O tema é o processo de transição de gênero de seu filho Noah (que por um tempo se chamou Andy, antes de adotar este nome), contado pelo ponto de vista da mãe, Coraci, para quem filmar seria “a melhor maneira de entender o que estava acontecendo”.  Valendo-se de fotos, imagens amadoras da família e entrevistas, a documentarista resgata a história de sua família. De sua mãe que viveu um tempo em kibutz em Israel a Noah em seus questionamentos, descobertas e indecisões juvenis, dando o tom de uma crônica familiar ao filme, que também, a seu modo, investiga a história do país.
 
A mãe de Coraci conta de sua história de militância, da gravidez quando ainda era estudante universitária, o que ecoa também na trajetória da diretora, que também engravidou na faculdade, e também tem seu engajamento – especialmente com o feminismo. Ainda assim, foi-lhe difícil compreender que não são determinações biológicas que formam a identidade de uma pessoa, e isso gera uma das melhores cenas do documentário: Noah explicando-lhe, por meio de desenhos, o que é gênero, que está no cérebro, “onde você se sente, onde você é uma mulher, um homem... ou seja lá o que você for”, e “onde fica o coração é onde é a orientação sexual”.
 
Limiar é um documentário necessário para o presente, que não apenas joga luz em questões de extrema importância, como a discussão de gênero e transfobia, mas também levanta e se aprofunda no debate a partir de dois relatos pessoais: o de Coraci e o de Noah, em busca da compreensão de si mesmos e do mundo em que vivem. É aí que está o ganho do documentário: falar do pessoal, das experiências próprias.
 
A expressão de surpresa e alegria de Noah quando a mãe lhe conta que é bissexual é da sensação de um pertencimento, de uma descoberta que aproxima ainda mais os dois. “Eu achei que você era ‘mó-hétero’”, diz o rapaz com seus grandes olhos arregalados e sorriso aberto. É nesses pequenos momentos pessoais que mãe e filho ficam ainda mais próximos, e o filme mais forte, transmitindo uma sensação de utopia, de que um mundo melhor é possível a partir da compreensão e respeito mútuo.
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