04/06/2026
Drama Biografia

O matemático

Radicado desde os anos 1930 nos EUA, o talentoso matemático polonês Stanislaw Ulam, professor em Harvard, é convencido a participar do secreto Projeto Manhattan - que levou à construção da bomba atômica e definiu o rumo da II Guerra Mundial.

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Inspirado nas memórias do polonês Stanislaw Ulam (1909-1984), O Matemático, de Thor Klein, encena não só uma biografia parcial de um dos participantes do Projeto Manhattan, criador da bomba atômica nos anos 1940, como fornece um contexto que permite abordar dilemas éticos e pessoais em torno da façanha que definiu o rumo da II Guerra Mundial.
 
O ator Philippe Tlokinski dá uma interpretação sensível ao personagem de Ulam, um matemático brilhante que emigra da Polônia para os EUA, junto com o irmão menor, Adam (Mateusz Wieclawek), nos anos 1930, tornando-se professor na Universidade de Harvard. Eles são judeus mas isso não parece ser uma questão crucial até que a II Guerra explode e eles se preocupam com sorte da irmã, do sobrinho e de seus pais com a iminente invasão nazista da Polônia.
 
À parte essa preocupação, Ulam parece perfeitamente ajustado ao seu ambiente profissional, onde abundam, aliás, estrangeiros de vários países. Seu melhor amigo é outro matemático, o húngaro Johnny von Neumann (Fabian Kociecki), responsável por trazê-lo para o Projeto Manhattan.
 
Boa parte da história se passa na sede do projeto, em Los Alamos, Novo México, onde se desenvolvem as pesquisas ultrassecretas que visam levar os EUA a vencer a corrida armamentista que, nos anos 1940, se dava com a Alemanha nazista. Recriado de maneira eficiente pelo desenhista de produção Florian Kaposi, este ambiente de Los Alamos evoca a atmosfera de uma bolha, em que os cientistas, junto de suas famílias, viviam à parte do resto da sociedade, entregues apenas aos seus cálculos e às pressões por rápidos resultados. Tratava-se, afinal, da arma que decidiria a guerra.
 
A motivação de Ulam para este esforço de guerra tinha também um cunho pessoal. Se ele nunca viu com tranquilidade a letalidade extrema das bombas que ajudou a produzir - como se viu, em breve, no Japão -, seu intento era colocar nas mãos de seu país de adoção a arma que lhe permitisse vencer a guerra contra aqueles que ameaçavam sua família. 
 
Esse dilema moral, dele e de seus colegas, é delineado no filme, que mantém um tom um tanto contido, por vezes frio, para retratar eventos tão dramáticos. Mas a narrativa tem seus pontos altos no retrato fraterno da amizade entre Ulam e Johnny, que permite à história sair do ambiente de competitividade científica e tornar-se um pouco mais intimista e humana. Até as cenas familiares entre Ulam e sua mulher francesa, Françoise (Esther Garrel), não chegam à mesma temperatura daquelas entre os dois amigos, neste que, como descreve Johnny, foi seu único relacionamento funcional.
 
A fotografia do romeno Tudor Vladimir Panduru (Malmkrog) tira bom proveito das locações nos grandes espaços de Los Alamos, tornando verdadeiras metáforas da formidável solidão destes personagens sua inserção na imensa paisagem vazia, algo desolada. É como o próprio talento destes cientistas os colocasse num mundo à parte, onde ninguém pudesse segui-los e eles não conseguissem, igualmente, diminuir o passo para esperar companhia.
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