O cinema de realismo social britânico é elevado a outro patamar em Ray & Liz, a estreia na direção do fotógrafo Richard Billingham, um claro discípulo de Mike Leigh e Terence Davies. Isso não quer dizer, no entanto, que ele faça mera cópia do cinema praticado por esses dois cineastas. Aqui, aliando sua formação como artista, ele encontra um rigor formal que contribui para a atmosfera de claustrofobia nesse filme inspirado em sua infância.
O Ray e a Liz do título são os pais do diretor. Três episódios tentam dar conta da história da família Billingham na cidade de Birmingham. Os pais podem dar título ao filme, mas são os dois filhos pequenos o centro da ação. O ponto de partida – estético, narrativo e até emocional – é uma série de fotos que Richard fez dos pais e do irmão caçula, publicada num livro chamado Ray’s a laugh.
A época do filme são os anos 1980, quando o proletariado inglês vive sob a austeridade do neoliberalismo de Margaret Thatcher. O resultado é avassalador e, ao mesmo tempo, engraçado e terno, pois boa parte da ação é vista pelos olhos do irmão caçula, um garoto com muita energia, tempo e criatividade sobrando, e que, aos 11 anos, foi retirado da guarda dos pais, acusados de negligência.
São episódios como esse que se apresentam no filme de maneira direta, sem floreios, o que não quer dizer que Ray & Liz não tenha um grande poder emocional. A fotografia de Daniel Landin (Sob a pele) dá um quê de envelhecimento às imagens, criando uma história do passado em movimento, viva, que está acontecendo enquanto se narra, muito embora a moldura do filme seja um Ray (Patrick Romer) já idoso, relembrando sua família.
O casal é interpretado por Justin Salinger e Ella Smith, que criam um par de personagens memoráveis, cujas presenças são sentidas mesmo quando estão fora de cena – como acontece no primeiro episódio, no qual o Tio Lol (Tony Way), que deveria tomar conta do caçula, toma um porre homérico, incentivado pelo inquilino dos Billingham.
Como a cineasta inglesa Andrea Arnold (especialmente em seus primeiros filmes, Red Road e Fish Tank), Richard Billingham aborda a cultura da classe trabalhadora com um olhar de dentro. Os personagens, por isso mesmo, são extremamente humanos e convincentes. A pobreza e as dificuldades da vida nunca são um fetiche estético ou narrativo, mas as condições que transformam a existência dessas pessoas exatamente no que elas são.
