Rebecca Hall confere uma inédita densidade ao terror A Casa Sombria, interpretando uma viúva assombrada não só pelas lembranças como pela presença fantasmagórica de um marido morto.
O diretor David Bruckner cria uma tensão eficiente em torno da própria casa que dá nome ao filme, o lar de Beth (Rebecca) que foi construído pelo marido arquiteto, Owen (Evan Jonigkeit), que acaba de suicidar-se.Toda envidraçada, à beira de um lago, a casa parece adquirir vida ao longo do processo de luto da viúva, atormentada por sons e sombras inexplicáveis.
Rebecca é o tipo da atriz capaz de sustentar a ambiguidade de alguém que luta por explicações racionais de seu pesadelo atual - em que os sonhos parecem não separar-se da realidade, antes, serem uma extensão dela. Assim como uma outra casa que ela vê nestes sonhos, uma réplica ao reverso da sua própria, assombrada por visões do marido e de uma série de mulheres, que se parecem muito com ela.
A ideia do duplo, que tanto fascinava o escritor argentino Jorge Luis Borges, é uma pista sedutora numa história que flerta com a diluição das fronteiras entre o natural e o sobrenatural, a racionalidade e a loucura, como todo bom relato de fantasma que se preze. A direção de arte, o desenho de som, a fotografia e os efeitos especiais, embora nada espetaculares, dão conta da criação do clima apavorante desta jornada de Beth, que insiste com uma coragem no limite da insanidade em procurar descobrir o que há por trás do suicídio do marido, que deixou vestígios de uma vida dupla de que ela nunca suspeitou.
Na verdade, pela peculiaridade dos fenômenos que ela presencia - e que podem ou não ser apenas a sua imaginação -, Beth está mesmo sozinha. Pouco podem fazer por ela pessoas que estão por perto, como seu velho vizinho, Mel (Vondie Curtis-Hall), e a melhor amiga, Claire (Sarah Goldberg). Suas participações, no entanto, servem como divisores de águas para o público, entre o que parece real e o labirinto de horror em que a viúva mergulha,.em busca de uma ponta que só ela mesma pode puxar para sair.
Como em toda história do gênero, também, a solução deixa dúvidas ao final, quando tudo parece ter-se esclarecido. Mas a lógica, é bom lembrar, nunca funciona 100% quando as luzes se apagam e alguém fica só com seus medos
