Uma amizade, dois violões e um trajeto feito 35 anos atrás, revivido no presente. Esse é o mote do documentário Dois Tempos, de Pablo Francischelli, argentino radicado no Brasil que acompanha o violonista argentino Lucio Yanel e o brasileiro Yamandu Costa, refazendo a viagem que o primeiro fez mais de três décadas atrás, no interior do Rio Grande do Sul, agora rumo a Corrientes, terra natal de Yanel. Este é um filme de reminiscências e descobertas a bordo de uma motor-home ocupada apenas pelos dois músicos.
Olhar pelas janelas é a oportunidade de fazer um exame das mudanças históricas, econômicas e sociais da região. Mas também os próprios Yanel e Yamandu se questionam - o primeiro, professor do segundo - sobre como mudaram como pessoas e músicos. Na primeira parada, à noite, próximo a uma fogueira, já sacam seus violões, e esse é o primeiro momento musical de um filme que tem a música como pauta. No veículo, o GPS parece enlouquecido e resta perguntar na beira da estrada como se faz para chegar a São Nicolau.
É num tom de descontração e intimidade que Francischelli constrói o documentário. Os dois protagonistas, sem qualquer interferência, dominam o filme com suas conversas e filosofias. “Você acredita em destino, velho?”, pergunta Yamandu. “Estou inclinado a acreditar”, responde o outro, que conta o motivo. Como todo road movie, a estrada e suas interações são mais interessantes e importantes do que o destino final. Não são poucas as vezes em que a dupla aborda alguém ou é abordada, e as interações enriquecem o filme.
Dois Tempos faz um convite para entrar num outro mundo, onde a velocidade das coisas é mais pacata, o som do violão domina as conversas, e tudo parece verde o tempo todo – basta olhar pela janela do carro. Com esse documentário, Francischelli captura algo muito especial, não apenas a beleza da música, mas também o poder da amizade.
