O Afeganistão, pós a desocupação soviética (1989), sofre até hoje uma série de guerras internas, que incentivou o êxodo de civis para países vizinhos. Antes mesmo que os EUA investissem contra os afegãos, depois dos atentados ao World Trade Center (2001), o Paquistão e o Irã já tinham recebido 3,5 milhões de refugiados. E como são estrangeiros - e muitos - conseguem apenas trabalhos precários de baixa qualificação, sem qualquer apoio govenamental desses países.
Esta é a base que molda Baran. Quando um operário afegão se acidenta na obra, o capataz ordena: "Levem-o ao hospital. Mas não digam que ele trabalha aqui". O pedido revela o estado degradante no qual vivem. Não podem ser admitidos em empregos formais, tendo que viver em guetos pobres, excluídos socialmente.
O operário em questão é Najaf, que, com o acidente, não tem como sustentar a família. Por isso, manda seu filho Rahmat trabalhar em seu lugar. No entanto, como é franzino e desajeitado, acaba sendo dispensado de suas funções de pedreiro e passa a trabalhar na cozinha da construção. A mudança acaba despertando a revolta de Lateef, jovem ajudante de cozinha briguento, que passa então a derrubar paredes.
Nas sucessivas tentativas de boicotar o trabalho de Rahmat, o enciumado Lateef descobre que o novo ajudante é na verdade uma menina, pela qual se apaixona. Nesse ponto, surge o humor delicioso do desespero juvenil de chamar a atenção do outro. Um lento trabalho de cortejo e sedução, em um silencioso romance, com momentos que chegam a ser líricos, dentro de um denso drama social.
Ainda que essa obra não seja precisamente excepcional, a história contada em enxutas palavras oferece ao espectador elementos suficientes para sensibilizá-lo. Tanto pela intrincada história de amor, que o diretor Majid Majidi consegue desenvolver de forma bastante comovente e intimista, como também pelo testemunho de uma realidade insustentável, longe dos meros registros estatísticos.
Cineweb-29/5/2003
