Diretor consagrado por filmes como Barbara (2012), Phoenix (2014) e Em Trânsito (2018), o alemão Christian Petzold impregna seu novo trabalho, Undine, de uma veia de fantasia e sentimentos maior e mais audaciosa do que nunca antes em sua bem-sucedida carreira. E tudo para criar uma trama contemporânea que colhe sua inspiração primeira na mitologia romântica germânica do século XIX.
"Undine'', que pode ser traduzida em português como “Ondina”, é uma ninfa que vive nas águas, saindo delas eventualmente para viver um amor. Há um toque fatalista, porém - se é verdade que ela ama incondicionalmente, ela também é imbuída da missão de matar o amado que a traia, depois do que voltará às águas até que um novo romance se repita.
Mesmo não sendo necessário conhecer o mito, saber disso ajuda a entender a natureza volátil desta Undine Wibeau (Paula Beer, premiada em Berlim 2020 como melhor atriz). A intrigante cena inicial apresenta esta protagonista levando um fora do namorado, Johannes (Jacob Matschenz). Ela tenta demovê-lo a voltar atrás e, sem sucesso, avisa que terá que matá-lo.
Trata-se do primeiro elemento hiperrealista de uma história que sofrerá inúmeras reviravoltas, como o encontro casual entre Undine e Christoph (Franz Rogowski), um mergulhador industrial que assistiu a uma das palestras que ela, uma historiadora, ministra sobre a história arquitetônica de Berlim. Uma capital que nasceu sobre um pântano, uma outra referência à água, neste caso contida para que se erguesse esta cidade marcada por tantas destruições e reconstruções, das guerras à queda do Muro.
Rico em camadas, o filme constrói expectativas e surpresas em torno da movimentação destes personagens apaixonados, sendo Undine e Christoph capazes de uma entrega quase fatalista, esta uma das chaves do destino de Undine. Flertando aqui, mais uma vez, embora numa chave bem diferente, com a ideia de duplos - como fizera em Phoenix, em que uma mulher (Nina Hoss) dada como morta volta da guerra, e Em Trânsito, em que um homem (Franz Rogowski) assume uma falsa identidade - , Petzold equilibra sua história de amor criando vínculos com os locais onde se movem seus amantes - muitos ambientes fechados, alguns subaquáticos, proporcionando à fotografia do habitual parceiro do diretor, Hans Fromm, a tarefa de conter as cores numa paleta descorada, cinza, em tons escuros, longe da luz.
Contracenando juntos mais uma vez, a exemplo de Em Trânsito, Paula Beer e Franz Rogowski, sustentam na medida precisa a atmosfera de um romance em nada igual aos outros, com um pé em cada mundo, sem perder de vista a autenticidade. O diretor mantém a veia fantástica que impregna a própria natureza de sua história com notável segurança e contenção, demonstrando ter não só atingido a maturidade numa carreira notável, como evidenciando o desejo da arriscar-se fora de sua zona de conforto.
