O ator Reynaldo Gianecchini começou sua carreira no Teatro Oficina (SP), sob a mentoria do diretor José Celso Martinez Corrêa, mas abandonou o grupo para se dedicar à televisão. Por 20 anos, nunca mais reviu seu antigo mentor pessoalmente. Nesse documentário, os dois se reencontram para uma leitura de uma versão de "Fédro", de Platão.
- Por Alysson Oliveira
- 03/01/2022
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“Vai ficar um filme muito doido”, diz José Celso Martinez Correa, a certa altura em Fédro, enquanto tira a roupa. Só a presença do dramaturgo/ator/diretor já garantiria mesmo “um filme muito doido”, mas, curiosamente, o documentarista estreante Marcelo Sebá faz um longa bem mais centrado do que se poderia presumir. Marcado pela delicadeza e o reencontro, a obra é uma ponderação sobre a arte e a política, e como essas duas se relacionam.
Em cena, apenas Zé Celso e Reynaldo Gianecchini, que estreou no teatro por suas mãos, na peça Cacilda, de 1998. O ator seguiu carreira no Teatro Oficina, mas acabou saindo de lá para entrar para a televisão alguns anos depois. Desde então, nunca mais reencontrou seu mentor – algo que assume um tanto envergonhado. A partir desse reencontro e da leitura da peça Fédro, de Platão, o filme parte do teatro para falar do estado das coisas.
O reencontro se dá em duas chaves, num apartamento no centro de São Paulo, numa noite em 2019. Giannechini chega tímido, receoso de reencontrar o antigo mestre – será que existe algum rancor da separação abrupta? Zé Celso, por sua vez, é generoso: “sempre acompanhei sua carreira, mesmo de longe”. Depois de quebrado o gelo, os dois parecem amigos de longa data que se veem sempre.
O texto, do século IV a.C., é adaptado por Zé Celso, que encontra nele um ponto de partida para falar dos assuntos mais diversos: desde a degradação do Brasil e da cultura, no atual governo (“eles odeiam a arte”), até o trágico assassinato de seu irmão, com mais de 100 facadas no final dos anos de 1980, passando pelo teatro e e como a tragédia é o gênero mais potente ou como o drama se tornou eminentemente burguês.
Zé Celso dá uma aula não só de teatro, mas também de engajamento político e de humanismo. Giannechini, pupilo aplicado, presta atenção no mestre e parece tentar absorver ao máximo os ensinamentos. O diretor, por sua vez, sagazmente, deixa que o dramaturgo conduza o filme, que é repleto de humor e questionamentos filosóficos sem nunca cair num pedantismo intelectual – pelo contrário, as discussões são acessíveis e interessantes mesmo para quem não tem familiaridade com questões teatrais.
