Não são pouco os temas em que o longa brasileiro A Jaula toca. Remake do argentino 4x4, de Mariano Cohno, a produção nacional é dirigida por João Wainer, fotógrafo e documentarista (Junho - O Mês que Abalou o Brasil), que estreia na ficção. O ponto de partida do filme é um jovem ladrão, Djalma (Chay Suede), que invade um SUV estacionado numa rua pacata de São Paulo.
Depois de pegar o que consegue e urinar dentro do carro, ele tenta sair e descobre que está preso no veículo. As portas não abrem, os vidros não quebram, e não há nada que possa fazer. O tempo passa, o calor aumenta, assim como a revolta. Ele não tem água ou comida, até que recebe no rádio do carro uma ligação do dono do veículo (Alexandre Nero, numa atuação exagerada que beira o caricato). Ele é um ginecologista renomado que está com câncer e cansou de ser roubado. Como é muito rico, decidiu fazer essa armadilha para capturar o próximo que tentasse levar seu carro.
A primeira metade do filme se arma de maneira claustrofóbica, ficando praticamente o tempo todo dentro do carro com o ladrão. Não é pouco o feito técnico e de montagem para conseguir transmitir a sensação de que foi filmado dentro de um carro fechado. Mas o discurso do filme, retrógrado e moralmente raso, transforma A Jaula numa prisão ideológica para fazer a alegria de quem é “contra isso tudo que está aí”, muito embora o longa pareça querer dizer o contrário.
Esse é um filme sádico, que gosta de despertar, quase como um experimento sociológico, o que há de pior em seu público e apela a golpes baixos. Falará direto com quem já foi roubado, especialmente se sofreu violência. As ideias do médico podem ser legitimadas por sua sede de vingança? Ao mesmo tempo, constrói o personagem como um homem relativamente bom: ele descobre o endereço do bandido, vai à casa dele e doa uma boa quantidade de dinheiro à mulher e ao filho.
Os personagens são destituídos de qualquer complexidade. São o que são, o ladrão ingênuo e o médico rico e cidadão de bem. A desculpa do câncer do personagem de Nero serve para justificar suas ações: ele não tem nada a perder e acaba tomando Djalma como refém. Se fosse uma narrativa mais bem-construída, haveria uma inversão de valores, mas não é o caso. Ao trabalhar com estereótipos, o filme não esboça um esforço de superar seus limites.
Supostamente, A Jaula é sobre linhas tênues e esfumaçadas que separam o certo do errado, mas acaba sendo apenas mais uma fantasia extremista sobre fazer justiça com as próprias mãos, alimentando, como bem se sabe, o sonho de milhares.
