Em um ensaio sobre o romance Crash, do inglês J. G. Ballard, o filósofo francês Jean Baudrillard começa dizendo que de “uma perspectiva clássica (até cibernética), tecnologia é uma extensão do corpo. É a sofisticação funcional de um organismo humano que lhe permite ser igual à natureza e investir triunfantemente na natureza”. O momento era os anos de 1970, os loucos anos de 1970, quando as utopias de Maio de 1968 tinham repercussão e o neoliberalismo já começava a se tornar hegemônico.
Era também o momento de um consumismo desenfreado, com a necessidade da mercadoria gerar ainda mais dinheiro. O livro de Ballard, publicado em 1973 (e transformado em filme por Cronenberg, em 1996), era uma crítica, entre outras coisas, à potencialização do consumo. Hoje em dia, não são bens que geram capital, mas o próprio dinheiro gera dinheiro. Em seu premiado Titane, vencedor da Palma de Ouro 2021, a diretora francesa Julia Ducournau não é ingênua a ponto de ignorar isso, mas seu delírio em horror corporal também parece não se dar conta de que o tempo passou e o automóvel, como fetiche da mercadoria, tem outra figuração.
Trafegando num universo semelhante, a brasileira Renata Pinheiro em seu Carro-Rei, premiado em Gramado, aposta num potencial muito mais transgressor do que Titane. São dois filmes repletos de pontos em comum, mas o brasileiro, em sua estética e sua visão de mundo, é muito mais anárquico e sagaz do que o francês, com suas ideias regressivas sobre os laços familiares. Titane começa bastante bem, abraçando o horror corporal e a sanguinolência sem pudor. Mas tem uma energia que se esgota na metade, quando se torna um drama, se não convencional, enfadonho e que não sobrevive a um escrutínio mais profundo.
A pequena Alexia (Adèle Guigue) – um nome que remete a uma famosa inteligência artificial – sofre um acidente de carro por conta da negligência do pai (o cineasta Bertrand Bonello), e é obrigada a receber um placa de titânio no crânio, ficando com uma cicatriz sobre a orelha. Alguns anos mais tarde, mal saída da adolescência, agora interpretada pela estreante Agathe Rousselle, ela trabalha como dançarina com movimentos eróticos sobre carros, além de ser uma serial killer – geralmente usando um palito que espeta no cabelo para segurá-lo.
Ducournau, que não tem pudores, faz o sangue jorrar para todo lado – mas não estão aí as cenas mais fortes do filme. Quando percebe que a polícia a identificou, depois de matar mais de meia dúzia de pessoas numa orgia, Alexia vê a foto de um garoto desaparecido quando criança, percebendo uma estranha semelhança sua com ele. Depois de cortar os cabelos e quebrar propositalmente o nariz (eis a cena de revirar o estômago) na pia de um banheiro público, ela assume o papel do desaparecido, para alegria do pai dele, o chefe de bombeiros Vincent (Vincent Lindon), que aceita de bom grado o retorno do filho, sem sequer pedir um exame de DNA.
As personagens aqui são pessoas desesperadas por uma conexão, pela constituição de uma família aos moldes burgueses, por mais que o verniz da ousadia cubra Titane. Vincent quer um filho, Alexia, um pai. Além disso, depois de um show, ela manteve relação sexual com um carro e engravidou. Agora a barriga cresce rapidamente e ela precisa de uma abrigo para seu filho – seja lá qual for sua aparência. Vincent instala seu filho pródigo no quartel onde mora e onde esse pai se injeta alguma substância que o ajuda a manter o físico, embora isso pareça não ter mais efeito.
A transição de uma parte para a outra não é suave. Titane percorre uma estrada esburacada com uma paisagem interessante – o filme é extremamente bem filmado – mas com trancos a todo momento. Trancos, em si, no cinema, não são de todo uma má ideia. É preciso chacoalhar ao público e Ducournau o faz com gosto, mas nem sempre com efeito. A segunda parte não tem o mesmo ritmo, gira em falso em torno das mesmas ideias o tempo todo. Parece que a cineasta tinha um ponto de partida para dois filmes, nenhum deles um longa, e juntou tudo amarrando no final – bizarro, diga-se, mas plausível dentro de sua realidade.
Aqui, o carro (em forma de titânio) é a extensão literal do corpo de Alexia. Dentro dela, o natural se encontra com o industrial. Ao sair do hospital, com a placa em sua cabeça, o primeiro gesto da menina é beijar um automóvel. Ducournau é uma cineasta interessante e ousada, não deixa de ter méritos, mas é sempre bom lembrar que Ballard fez algo parecido e bem mais transgressor e incômodo quase meio século atrás.
