A estreia do colombiano Nicolás Rincón Gille é um filme que demanda a entrada num mundo e num tempo próprios – o que ele tem a dar em troca dessa exigência é também bastante condizente com o esforço que pede de seu público. Num ritmo justificadamente lento e com poucos diálogos, Tantas Almas é um grande filme em suas questões políticas e sociais, assim como em suas escolhas formais.
A água tranquila do Rio Magdalena, que atravessa a Colômbia de norte a sul, contrasta com o que ele pode esconder – mais do que apenas corpos desovados ali, a história de um país marcado pela violência e pelo medo. O momento é o começo do século XXI, mas poderia ser qualquer outro recente. O protagonista é José (José Arley de Jesús Carvallido Lobo), um pescador em busca de seus filhos, que foram capturados por milícias.
A jornada segue, então, pelo rio em busca dos filhos, estejam vivos ou mortos. É uma viagem de dimensões míticas, e, ao mesmo tempo, tão humana. Gilles, experiente documentarista que já filmou o mesmo tema, tem um estilo documental com a câmera que acompanha o personagem em sua viagem e interações com as poucas pessoas que cruzam seu caminho.
Do rio, José tirava seu sustento e agora se transformou em seu Aqueronte, o mitológico rio da tristeza, onde as almas abandonam seus sonhos. Se o protagonista os tinha, ficaram para trás, numa vida marcada por opressão e violência, num país onde isso é a lei informal, no reinado das Autodefensas Unidas de Colombia (AUC), um grupo paramilitar de extrema-direita ligado ao tráfico de drogas, que esteve ativo no país até 2008.
Quando José encontra, não muito depois de começar sua jornada, o corpo de Rafael, ele tem uma espécie de consolo – ao menos sabe o paradeiro do rapaz. Mas a busca por Dionísio é mais longa, mais difícil e marcada pela tristeza. Porém, o protagonista segue firme em seu propósito, apesar das adversidades.
Carvallido Lobo, que não é ator, mas um pescador, como seu personagem, parece ter vivido na pele experiências parecidas – se não com os filhos, com pessoas próximas, vítimas dessas atrocidades. Vestido com uma camisa de futebol – com as cores do Brasil – o tempo todo, José tira uma força sabe-se lá de onde. Visualmente, Tantas almas é bonito, com fotografia de Juan Sarmiento G., aproveitando-se da paisagem local, da exuberância do rio potente – uma natureza que parece se compadecer da dor do protagonista, dando-lhe força para seguir em frente.
