08/06/2026
Drama

Tantas Almas

Colômbia, começo dos anos 2000, um país aterrorizado pela violência das milícias paramilitares. Depois que seus filhos somem, um simples pescador segue pelo Rio Magdalena, que atravessa o país, em busca dos dois rapazes.

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A estreia do colombiano Nicolás Rincón Gille é um filme que demanda a entrada num mundo e num tempo próprios – o que ele tem a dar em troca dessa exigência é também bastante condizente com o esforço que pede de seu público. Num ritmo justificadamente lento e com poucos diálogos, Tantas Almas é um grande filme em suas questões políticas e sociais, assim como em suas escolhas formais. 
 
A água tranquila do Rio Magdalena, que atravessa a Colômbia de norte a sul, contrasta com o que ele pode esconder – mais do que apenas corpos desovados ali, a história de um país marcado pela violência e pelo medo. O momento é o começo do século XXI, mas poderia ser qualquer outro recente. O protagonista é José (José Arley de Jesús Carvallido Lobo), um pescador em busca de seus filhos, que foram capturados por milícias. 
 
A jornada segue, então, pelo rio em busca dos filhos, estejam vivos ou mortos. É uma viagem de dimensões míticas, e, ao mesmo tempo, tão humana. Gilles, experiente documentarista que já filmou o mesmo tema, tem um estilo documental com a câmera que acompanha o personagem em sua viagem e interações com as poucas pessoas que cruzam seu caminho. 
 
Do rio, José tirava seu sustento e agora se transformou em seu Aqueronte, o mitológico rio da tristeza, onde as almas abandonam seus sonhos. Se o protagonista os tinha, ficaram para trás, numa vida marcada por opressão e violência, num país onde isso é a lei informal, no reinado das Autodefensas Unidas de Colombia (AUC), um grupo paramilitar de extrema-direita ligado ao tráfico de drogas, que esteve ativo no país até 2008. 
 
Quando José encontra, não muito depois de começar sua jornada, o corpo de Rafael, ele tem uma espécie de consolo – ao menos sabe o paradeiro do rapaz. Mas a busca por Dionísio é mais longa, mais difícil e marcada pela tristeza. Porém, o protagonista segue firme em seu propósito, apesar das adversidades. 

Carvallido Lobo, que não é ator, mas um pescador, como seu personagem, parece ter vivido na pele experiências parecidas – se não com os filhos, com pessoas próximas, vítimas dessas atrocidades. Vestido com uma camisa de futebol – com as cores do Brasil – o tempo todo, José tira uma força sabe-se lá de onde. Visualmente, Tantas almas é bonito, com fotografia de Juan Sarmiento G., aproveitando-se da paisagem local, da exuberância do rio potente – uma natureza que parece se compadecer da dor do protagonista, dando-lhe força para seguir em frente.
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