04/09/2026
Documentário

Brasileiríssima

Um dos produtos culturais mais importantes do Brasil, a telenovela é o tema desse documentário que destaca as produções da Rede Globo e as campanhas sociais veiculadas em suas obras.

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Brasileiríssima, de André Bushatsky, é, para usarmos o clichê honesto, sobre uma das paixões nacionais: a telenovela. O assunto é tão instigante quanto importante. Praticamente todo brasileiro e toda brasileira, em algum momento da vida, nem que seja na infância, acompanhou uma novela. O formato é tão importante no Brasil que sabemos o que está acontecendo na trama mesmo sem assistir – basta abrir a internet. É também inegável sua importância sociológica. Nesse documentário, Agnaldo Silva diz que quem quiser, no futuro, saber como era o Brasil da segunda metade do século XX basta recorrer às novelas.
 
Por isso mesmo, acaba sendo frustrante o escopo e o recorte pelo qual Bushatsky opta nesse documentário. Obviamente o assunto é vasto, são mais de 70 anos de produção. A primeira delas foi Sua Vida Me Pertence, de 1951, da TV Tupi, sendo exibida, ao vivo, duas vezes por semana. Só essa, em si, já renderia um filme. Mas Brasileiríssima opta por uma espécie de filme institucional da Rede Globo, com ênfase nas campanhas sociais veiculadas em novelas. Tudo bem, é uma escolha, e, realmente, é preciso delimitar diante de assunto tão vasto, mas não deixa de ser uma opção desanimadora.
 
O filme é, em primeiro lugar, claramente, um produto da Rede Globo – a ponto de praticamente ignorar todas as outras emissoras. O primeiro produtor de teledramaturgia do canal foi O Ébrio, de 1965, e depois foi a consolidação como líder no formato. É óbvio que um filme sobre o assunto seria dominado por esse canal, mas não a ponto de se falar apenas de passagem na primeira versão de Pantanal, de 1990, na Rede Manchete.
 
Outro estranhamento, e esse sem qualquer justificativa, é a presença de apresentadores da Rede Globo – Pedro Bial, Ana Maria Braga, Angélica e Tadeu Schmidt – comentando sobre uma área que não é de sua atuação, sem acrescentar absolutamente nada de novo ou interessante. Há uma gama enorme de pesquisadores e pesquisadoras em audiovisual, sociologia e história que trabalham com o assunto, e teriam muito mais a acrescentar ao filme – como Anamaria Fadul, uma das maiores referências no tema.
 
O começo é promissor: Lima Duarte contando sobre a chegada do primeiro aparelho de televisão no Brasil, que ele foi pessoalmente, com outros colegas, buscar em Santos. Segue, então, um breve histórico do surgimento da telenovela, até que o filme entrega os pontos e se concentra nas campanhas sociais da Rede Globo, como uma sobre o desaparecimento de crianças (em Explode Coração, de 1994) e outra sobre o desarmamento no Rio (em Mulheres Apaixonadas, de 2003). Não há dúvida de que todas essas ações foram importantes e tiveram resultados – embora o filme também não se aprofunde neles.
 
Afinal, Brasileiríssima promete uma coisa e cumpre outra. Como documentário é pobre – usa pouca imagens de arquivo, contenta-se com entrevistados que pouco têm a dizer sobre o assunto – e nada ilumina. Salvam-se, apenas, depoimentos de fãs de novelas, como uma moça portuguesa que, mesmo perdendo a visão, é apaixonada pelo gênero e por Tony Ramos, embora nunca o tenha visto.
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