20/07/2026
Documentário

A Fantástica Fábrica de Golpes

Dirigido por dois jornalistas brasileiros, o documentário investiga como a mídia nacional, em especial a Rede Globo, participou de uma campanha para manchar a imagem da esquerda no Brasil, que culminou no golpe contra de Dilma Rousseff, em 2016, na prisão de Lula e à ascensão da extrema-direita no país.

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O irônico título deste documentário, A Fantástica Fábrica de Golpes, não deve enganar ninguém. É com a mais cristalina e séria intenção de denúncia que seus diretores, Victor Fraga e Valnei Nunes, jornalistas brasileiros radicados na Inglaterra, empunham seus argumentos para desvelar a operação midiática que satanizou a esquerda em geral e o Partido dos Trabalhadores em particular, cimentando, com campanhas de difamação, sensacionalismo e até fake news, o trágico caminho que levou ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff, à prisão do ex-presidente Lula e à ascensão da extrema-direita, com a eleição de Jair Bolsonaro.
 
A ironia do título, aliás, refere-se a um processo cíclico sofrido pela democracia brasileira. Em 1964, como recentemente, a grande mídia em geral apoiou o golpe militar, seguindo um processo prévio de difamação do governo centro-esquerdista de então, do presidente João Goulart.
 
Elegendo como seu principal alvo a Rede Globo - embora não o único -, o documentário desvenda a ascensão do poderoso grupo, englobando jornais, rádio, televisão e internet, simbolizando o agudo processo de concentração dos meios de comunicação brasileiros nas mãos de pouquíssimas famílias.
 
Materiais de arquivo e entrevistas fornecem o arcabouço do documentário, bastante eficiente na escolha de depoentes como o Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, autor da precisa descrição de que os grandes jornais e emissoras de TV, não só no Brasil, procuram uma “monocultura das mentes”. Ou seja, uma domesticação do espírito crítico das massas através do bombardeio insistente de narrativas tendenciosas, enviesadas, em torno de determinados processos políticos ou figuras públicas - como aconteceu em relação à ex-presidenta Dilma Rousseff, outra entrevistada no filme.
 
Sendo Fraga um ex-jornalista do jornal britânico The Guardian (onde trabalhou por sete anos), ele não poupa o periódico, como vários outros órgãos da imprensa internacional, por ter adotado acriticamente as narrativas antiesquerdistas da grande imprensa brasileira, deixando de investigar a flagrante instrumentalização da justiça que ocorria, por exemplo, dentro da operação Lava-Jato. O documentário informa, inclusive, que, em 2018, Dilma deu uma entrevista ao Guardian, instando o jornal para que fizesse sua própria apuração sobre o que ocorria naquele momento no Brasil. Nem isso foi feito nem a entrevista foi jamais publicada.
 
Recorrendo a análises da filósofa Márcia Tíburi, do ex-deputado Jean Wyllys, do advogado de direitos humanos britânico Geoffrey Robertson, do jornalista Glenn Greenwald e do cantor e compositor Chico Buarque de Holanda - co-autor da trilha do filme -, A Fantástica Fábrica de Golpes não só desconstrói as armadilhas desses tempos recentes, como projeta uma necessidade maior - afinal, o Brasil conseguirá interromper essa cíclica instabilidade política e estabelecer finalmente sua democracia sem sustos?
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