19/07/2026
Romance Fantasia Drama

Era uma vez um gênio

Em Istambul, numa conferência, da Dra. Alithea Binnie encontra um gênio que lhe concede três pedidos em troca de sua liberdade, mas ela é uma pesquisadora de mitologia, e sabe dos riscos que estão ligados a esse tipo de acordo. No Telecine.

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O veterano diretor George Miller exerce o melhor de sua habilidade como contador de histórias em Era Uma Vez um Gênio, em que ele, ao lado de Augusta Gore, adapta livremente um conto da autora britânica A.S. Byatt. Unindo o melhor de dois mundos, ele coloca uma possibilidade de convívio e troca entre a intelectualidade branca europeia, na pessoa da pesquisadora Alithea Binnie (Tilda Swinton), e toda a criatividade, paixão e magia do mundo oriental na figura de um gênio negro (Idris Elba), que sai de uma garrafa, como reza qualquer lenda.
 
Alithea é uma narratologista, ou seja, uma estudiosa das histórias de todo o mundo, que viaja até Istambul para mais uma palestra. Tímida e solitária, ela é a mais pura representação de uma racionalidade europeia que parece impermeável a grandes arroubos sentimentais, embora seja apaixonada pela sedução dos relatos que estuda.
Já na palestra, algo estranho acontece: enquanto ela fala, tem uma alucinação, vislumbrando uma estranha criatura na plateia que, quando se aproxima dela, a assusta e ela desmaia. Obviamente, ninguém ali presente viu nada. É o primeiro sinal de que a estranheza e a perda de controle terão o seu lugar nos acontecimentos.
 
No dia seguinte, Alithea passeia pelo tradicional Grande Bazar de Istambul e ali compra uma lembrancinha: uma pequena garrafa de vidro. Ao limpá-la, no quarto de hotel, a tampa sai e dela emerge o gigantesco gênio - que logo se adequa às dimensões do quarto e sintoniza seu tempo e espaço atual. Passo seguinte, informa à estupefata pesquisadora que ela tem direito a três desejos.
 
Superado o choque do primeiro encontro com o gênio, Alithea começa a descobrir as vantagens desta inusitada companhia. Afinal, se há alguém que tem muitas histórias para contar sobre sua longuíssima trajetória de três mil anos, e sabe contá-las, é mesmo ele. No entanto, o gênio tem alguma ansiedade: ele deseja que Alithea escolha logo seus desejos para que ele possa, finalmente, obter sua liberdade.A pesquisadora, no entanto, não tem a mesma urgência e não esconde a desconfiança por toda a situação.
 
Enquanto isso, não resta alternativa a ele senão ir desfiando suas aventuras, começando por ter sido amante da belíssima rainha de Sabá (a modelo ugandense Aamito Lagum), e percorrendo os séculos entre intrigas amorosas, familiares, traições e batalhas, terminando cativo por conta justamente de suas paixões. Retratando os relatos, Miller esbanja recursos de desenho de produção, cenários, figurinos e CGI, sempre que necessário, para evocar a magia de inúmeras situações.
 
Alithea acompanha a narrativa do gênio visivelmente encantada, sem poder deixar de perceber o contraste entre a vida dele e a dela - uma linha reta, monótona e descolorida, praticamente sem emoções ou amor. Houve, lá atrás, um casamento, com Jack (Peter Bertoni), mas terminou, tornando-a uma solitária irredutível.
 
Embora, por essa descrição, o encadeamento dos episódios pareça previsível, é tudo menos isso. No roteiro criativo de Miller e Gore, o envolvimento entre estas duas criaturas obedece a diversas etapas de acomodação, choques, contradições e surpresas, até se esboçarem as possibilidades de troca.
 
O fato de os dois papeis caberem a dois atores com tantos recursos e carisma natural é uma das mágicas disponíveis. O bom e velho Miller sabe muito bem que não há efeito especial que substitua essa química. Assim sendo, o filme é puro encantamento, divertido, surpreendente, inteligente e acha espaço até para um sutil discurso antiintolerância. O diretor, aliás, demonstra um respeito enorme pelas narrativas orientais que faz toda a diferença, revelando a beleza e criatividade que vêm de povos e países que conhecemos tão pouco e tão mal, não raro, atrás de um véu de preconceito.
 
Criador da saga Mad Max, Miller está muito à vontade neste filme que é, visivelmente, um projeto pessoal. Afinal, se tem alguém que sabe contar uma história é esse irrequieto senhor australiano de 77 anos.
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