19/07/2026
Documentário

Ennio, O Maestro

O compositor Ennio Morricone fala longamente de sua carreira e de suas obras neste documentário de Giuseppe Tornatore. O filme inclui entrevistas com diversos parceiros e admiradores, como Bernardo Bertolucci, Marco Bellocchio, Quentin Tarantino e outros.

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Exibido no 78º Festival de Veneza e na recente Festa do Cinema Italiano, o documentário Ennio, o Maestro revela o consagrado compositor e maestro por meio de uma longa entrevista conduzida pelo diretor Giuseppe Tornatore. Além desse fio condutor, o filme reúne depoimentos de realizadores e músicos, incluindo alguns muito conhecidos do grande público como Bernardo Bertolucci, Marco Bellocchio, Dario Argento, Quentin Tarantino, Wong Kar Wai (um dos produtores e distribuidor do filme), Bruce Springsteen, John Williams e Hans Zimmer. 
 
Nem por essa longa lista de falas elogiosas àquele que foi um dos mais prolíficos compositores de trilhas de cinema de todos os tempos o documentário deixa de revelar aspectos inusitados de seu protagonista. Logo nas primeiras imagens, ele é visto exercitando-se no chão, com exercícios de alongamento, uma figura miúda e ágil que não oculta o temperamento forte, em sua determinação de encontrar a melhor nota, o melhor acorde, o melhor arranjo e até os ruídos que pudessem entrar em suas composições inesquecíveis.
 
E pensar que ele, quando menino, queria ser médico, só sendo desviado desse sonho pela teimosia de seu pai, Marco Morricone, um músico, que o fez estudar trompete a partir dos 11 anos de idade. Formado aos 16, o adolescente viu-se forçado a substituir seu pai, na banda em que ele tocava à noite, quando este adoeceu e coube ao filho sustentar a família.
 
Estas dificuldades financeiras não o demoveram da intenção de continuar estudando. De dia, ele cursava o Conservatório, onde um de seus professores, Roberto Caggiano, teve a feliz ideia de orientá-lo a estudar composição. Depois, Ennio estudou com Goffredo Petrassi, apaixonado por Igor Stravinsky, que foi um de seus mentores. 
Essa sua formação clássica não foi mesmo uma estrada reta para a música de TV e depois de cinema, em que ele encontrou sua maior vocação. Na verdade, fazer arranjos musicais para a TV, para programas e músicas populares nos anos 1960, era seu ganha-pão, uma necessidade especialmente depois do casamento com Maria Nuova Consonanza, com quem ele foi casado 63 anos.
 
Sua primeira trilha cinematográfica foi para Luciano Salce, em seu O Fascista (Il Federale), de 1961, trabalho que ele continuou fazendo alguns anos sob pseudônimo -Dan Savio -, tamanho era o preconceito do meio musical elitista do Conservatório contra o trabalho de músicos no cinema, ainda mais em se tratando do spaghetti western que ele abraçou, o que custou décadas a ceder. 
 
Mas a trajetória de Morricone no cinema estava destinada a decolar, especialmente por conta de sua amizade com Sergio Leone, que fora seu coleguinha na escola. Junto a Leone, Morricone assinaria algumas de suas trilhas mais impecáveis, como dos filmes Por um Punhado de Dólares (1964), Por uns Dólares a Mais (1965), Era uma Vez no Oeste (1968), Era Uma Vez na América (1984). Nem por isso o relacionamento entre os dois deixaria de ser tão próximo quanto explosivo, com diversas rupturas e reaproximações, como lembram os filhos de Leone. 
 
Foi por causa de Leone, aliás, que Morricone deixou de fazer uma trilha que certamente lhe teria trazido ainda mais fama, o que foi o caso de Laranja Mecânica. Stanley Kubrick queria contratar o compositor mas, ao invés de contatá-lo diretamente, ligou para Leone que, possivelmente enciumado, mentiu dizendo que Morricone estava ocupado com um filme seu. 
 
Ainda assim, suas parcerias dentro do cinema italiano envolveriam alguns de seus nomes mais notáveis, como Marco Bellocchio (De Punhos Cerrados), Bernardo Bertolucci (Antes da Revolução, 1900), Gillo Pontecorvo (A Batalha de Argel), Pier Paolo Pasolini (Gaviões e Passarinhos), Paolo e Vittorio Taviani (Allonsanfan), Elio Petri (Investigação sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita) e o próprio Tornatore (Cinema Paradiso), Morricone não deixou de trabalhar também para norte-americanos como Roland Joffé (A Missão), Oliver Stone (U-Turn) e Quentin Tarantino (Os Oito Odiados, que acabou lhe dando um Oscar há muito merecido). 
 
Um dos maiores atrativos do documentário é ouvir o próprio compositor descrevendo seu processo de composição, evidenciando não só sua sofisticada formação como sua atenção para detalhes, como os ruídos possíveis de ser incorporados. Ouvi-lo falar é como adentrar esse talento por uma porta secreta e terminar concordando com o cineasta Marco Tullio Giordana: “O deus da música fala através dele”. 
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