No bairro de Athena, de maioria de origem árabe, um menino foi morto. As suspeitas recaem sobre policiais e os jovens se rebelam, invadindo uma delegacia e se apossando de carros e armas. Fortalecidos em seu bunker, os jovens esperam a inevitável chegada da polícia. No centro da comunidade, três irmãos do menino morto têm papel crucial no comando da situação.
- Por Neusa Barbosa
- 26/09/2022
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Filho de Constantin Costa-Gavras, Romain Gavras mostra, em seu terceiro longa, Athena, mais uma vez sua diferença do estilo do pai, afirmando seu gosto por ação e adrenalina, embora aqui não falte uma preocupação sócio-política. O filme toma seu nome de uma das explosivas periferias francesas, que está em pé de guerra após a morte de um menino, Idir, supostamente vítima da violência policial que aflige preferencialmente os jovens de origem árabe que ali vivem.
Assinado pelo próprio Gavras, ao lado de Elias Belkeddar e Ladj Ly (o premiado diretor de Os Miseráveis), o roteiro situa o início de uma rebelião popular em Athena, conduzida pelos jovens, quando a polícia reluta em identificar os agentes que teriam matado o menino. A sequência inicial, que mostra estes jovens, liderados por Karim (Sami Slimane), um dos irmãos do morto, é simplesmente alucinante, acompanhando seu ataque a uma delegacia, roubando carros e armas e levando tudo isso para Athena, onde eles formarão barricadas para resistir ao inevitável ataque da polícia.
Na espinha dorsal da história, está justamente este clã de irmãos que inclui, além de Karim, também Abdel (Dali Benssalah), rejeitado na comunidade por ter-se tornado militar, e Moktar (Ouassini Embarek), o traficante do pedaço. É através deles que se toma o pulso da rebelião, combatida por policiais fortemente armados, dentre os quais se distinguirá Jérôme (Anthony Bajon) - alguém que cai no olho do furacão despreparado e se torna alvo de uma tensa negociação.
Gavras imprime ao seu filme um sentido de urgência muito palpável, que tem visível intenção de denúncia da marginalização imposta aos franceses de origem árabe, tratados como cidadãos de segunda classe e alvos preferenciais da violência policial.
Mas não deixa de abrir uma brecha para discutir também o perigo dos julgamentos apressados e insere a ameaça da extrema-direita - talvez devesse até ter explorado um pouco mais este aspecto, já que os franceses de origem árabe são implacavelmente perseguidos pelos eleitores de Marine Le Pen e assemelhados, que defendem uma xenófoba “França para os franceses”, como se os netos de argelinos, marroquinos, senegaleses e outros não fossem franceses.
