19/07/2026
Drama

Taurus

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Segunda parte de uma tetralogia sobre líderes políticos do século XX, Taurus faz uma verdadeira autópsia da figura emblemática de Vladimir Ulianov, que passou à História como Lênin (Leonid Mozgovoi). O condutor da Revolução Russa de 1917 é enfocado, assim, não no seu momento de glória e sim nos seus últimos dias de vida. Doente, decrépito, isolado do Kremlin, sem contar nem mesmo com um telefone à mão, na sua residência rural em Gorki, Lênin é privado de todo o seu poder, até sobre seu próprio corpo. Depende dos outros, sofre dores cujo controle está fora de seu alcance. Aquele que foi um dos homens mais temidos de seu tempo é dominado por uma sensação de vazio e impotência, o resultado final do exercício do poder na visão polêmica do cineasta Aleksandr Sokúrov.

A postura de Sokúrov diante do poder é cética, curiosamente, tanto quanto frente ao próprio cinema. Em 2002, quando visitou São Paulo na abertura de uma retrospectiva em sua homenagem, o cineasta não se cansou de proclamar que considerava a literatura e a pintura superiores à sétima arte, mesmo não conseguindo explicar porque não abandona o métier. É parte também da peculiaridade de Sokúrov explorar contradições sem procurar resolvê-las, apresentando suas histórias como uma espécie de novelo emaranhado aos seus espectadores - uma postura que pode deixar perplexa boa parte da platéia ao mesmo tempo em que lança um desafio intelectual a quem se dispuser a assistir a seus filmes.

Interpretando Lênin, o ator Mozgovoi (que encarnou Hitler em Moloch - Eva Braun e Hitler na Intimidade (99), primeira parte da série sobre o poder) desempenha com eficiência o papel deste homem que moveu multidões a derrubar o império czarista e cujo exército se encontra agora reduzido a não mais do que um motorista - que o leva em ridículos passeios de carro à volta do jardim, onde o velho líder caça animais imaginários - , sua mulher (Maria Kuznetsova) e sua irmã (Natalia Nikulenko), fora as visitas do médico (Lev Yeliseyev). Não é por acaso que o roteiro de Yuri Arabov escolheu como um dos raros momentos de lucidez deste Lênin senil o dia de uma visita de seu sucessor, Stálin (Sergei Razhuk). Ali, diante do substituto triunfante, que lhe nega sistematicamente notícias do que ocorre em Moscou, Lênin dá-se conta de que o movimento da História acaba de colocá-lo definitivamente à margem dos acontecimentos.

É curioso como Sokúrov preocupa-se em manter um rigor documental - caso da impressionante semelhança física de seus protagonistas com os personagens reais - e em pesquisar elementos históricos para compor os cenários e a decoração da casa de Gorki, para em seguida desconstruir tudo isso numa visão tão estritamente pessoal desses mesmos personagens. Que ninguém tenha dúvida de que as posições políticas do diretor são francamente desfavoráveis à Revolução de 1917. No bem-cuidado site dedicado à sua obra (www.sokurov.spb.ru), Sokúrov declara sem rodeios que considera a revolução "uma catástrofe" e uma "maratona inumana e assassina" da qual Lênin foi o autor e principal organizador. Em suas entrevistas, o cineasta não esconde, aliás, seu apego à superioridade da grande arte sobre a política. Uma posição que alguns poderão considerar elitista e nostálgica mas que ele defende com notável sinceridade.

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