Aldo é um homem retraído, que vive no velho edifício de apartamentos de sua mãe, agora recolhida a uma casa de repouso, vivendo dos aluguéis e de uma atividade como guia turístico. No passado, ele foi Aldemar, um místico famoso e seguido por multidões, mas se retirou por causa de uma tragédia. Um jovem, que o reconhece, passa a segui-lo e quer que retome sua atividade mística.
- Por Neusa Barbosa
- 10/10/2022
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Raridade do cinema peruano em telas brasileiras, o drama Contatado, da diretora Marité Ugás - uma coprodução com Venezuela, Brasil e Noruega - investiga o universo do misticismo e sua exploração a partir da história de Aldo (Baldomero Cáceres). Antes um pregador místico com muitos seguidores, há anos ele se afastou da atividade, vivendo mais ou menos recluso num pequeno prédio decadente, de onde ele retira sustento de alugueis.
Mas os vestígios de seu passado como Aldemar, o místico que arrebanhava discípulos falando da energia e do fim do mundo, ainda lhe dão alguma renda, nos vídeos que um amigo, Rafo, vende a partir das imagens, que também circulam na internet.
No cenário das huacas, sítios arqueológicos incas no limite da cidade, Aldo também ganha algum dinheiro como guia informal, reciclando algumas de suas velhas histórias mitológicas.
Um jovem que começa a segui-lo, Gabriel (Miguel Dávalos), põe em risco a relativa anonimidade atual de Aldo - cujo recolhimento tem a ver com um incidente mal-explicado envolvendo um terremoto. A insistência do rapaz, aparentemente um candidato a discípulo, põe à prova a determinação de Aldo em manter-se anônimo.
O subtexto da história toca em temas que parecem não esgotar-se, como a necessidade de tantas pessoas de acreditarem em algum profeta, capaz de fornecer explicações que sustentem um sentido para as complexidades da vida.. De outro lado, surgem aqueles imbuídos de capacidade mercadológica, dispostos a instrumentalizar a fé dos outros em proveito próprio, especialmente econômico.
Contando com um ator bastante carismático, Baldomero Cáceres, a diretora coloca em funcionamento uma engrenagem narrativa em que procura despistar o que realmente vai dentro de seu coração, evitando julgar um homem que, em mais de um momento, mostra-se contraditório e amargo - mas não invulnerável. A trajetória de humanização de Aldo, no entanto, coincide com sua própria exposição a algo que, no passado, ele mesmo manipulou com maestria e talvez não entendeu de todo.
Desse ponto de vista, a complexidade do personagem, atende a algumas ambições do filme para refletir sobre estes fenômenos de fé que abalam a América Latina de uma maneira peculiar, embora não lhe sejam exclusivos. O filme não anda tão bem na composição do personagem do garoto, que parece ter sido delineado com menos rigor e entregue a um ator com muito menos recursos do que o protagonista, gerando um desequilíbrio.
