O título Deus tem AIDS chama bastante a atenção e talvez até aponte para um lado sensacionalista. A boa notícia é que o documentário, dirigido por Fábio Leal e Gustavo Vinagre, bem ao contrário, é um filme sério que investiga a maneira como a AIDS e o HIV se manifestam na esfera cultural desde sua descoberta, nos anos de 1980.
Ganhador dos prêmios de Melhor Filme pelo Júri Oficial e Júri Popular no Queer Porto, o filme começa resgatando o discurso, compreensivelmente alarmista, na época da descoberta do vírus. A questão é: o que mudou culturalmente nessas mais de três décadas? Sabemos que o tratamento do HIV evoluiu, mas as pessoas que convivem com o vírus foram desestigmatizadas até que ponto?
Os depoimentos dessas pessoas são iluminadores, a começar pelo de uma artista plástica que nasceu em 1988 com o vírus. Outras pessoas também falam sobre sua soropositividade e a relação disto com seu trabalho, vida pessoal e afins. Partindo não apenas de entrevistas, mas também de manifestações artísticas, o documentário dá voz de maneira aberta e sincera.
As histórias pessoais são, de certa forma, um reflexo da evolução da maneira como a AIDS e o HIV, além das pessoas que convivem com o vírus, são tratados no Brasil. De Cazuza na capa desrespeitosa da revista Veja em abril de 1989 ao presente, Deus tem AIDS é um documentário sem medo de entrar no cerne de seu tema, embora na forma seja um tanto convencional. Leal e Vinagre são dois cineastas para os quais o corpo é um tema central de suas ficções, por isso não é nenhuma surpresa que corpos estejam no centro desse filme.
Num país onde o atual presidente, Jair Bolsonaro, diz que “uma pessoa com HIV é uma despesa para todo o Brasil. Se glamouriza [sic] certos comportamentos e chega a esse ponto, uma depravação total”, um filme como esse é mais do que necessário, mais do que um alerta, é um manifesto a favor da vida.
