O documentário de Sacha Jenkins tem o mérito de não só lembrar as imensas qualidades e o pioneirismo do talentoso cantor e trompetista Louis Armstrong (1901-1971) como desafiar preconceitos que recaíram sobre sua figura ao longo dos anos - especialmente aqueles relativos à sua suposta falta de militância política pelos direitos dos afro-americanos.
O imenso sorriso deste músico nascido no começo do século XX em New Orleans, um sobrevivente da pobreza e do racismo da era das leis segregacionistas de Jim Crow, muitas vezes foi confundido com uma submissão aos brancos, uma falta de engajamento com sua raça. Jenkins explora esta imagem e a demole, especialmente a partir de observações da viúva do trompetista, Lucille, de depoimentos magistrais de dois artistas negros que, na juventude, o desprezaram por isso - o ator Ossie Davis e o músico Wynton Marsalis - e também por algumas gravações que o próprio Armstrong fez de suas opiniões.
Uma das descobertas deste filme, aliás, é este rico acervo de gravações que o trompetista fazia de conversas e declarações dele mesmo e de amigos, constituindo um rico acervo possivelmente ainda não completamente explorado pelos pesquisadores.
No mais, o documentário apóia-se na montagem criativa de Jason Pollard e Alma Herrera-Pazmiño, que recorrem a recursos multimídia para valorizar os muitos materiais de arquivo que constituem o cerne do filme - valendo-se, por exemplo, de efeitos visuais para destacar fotos e transformar as declarações em off em letras de jornais escorrendo pela tela, o que ajuda inclusive a acompanhar o que está sendo dito.
No mais, a simpatia e o talento do personagem mais do que falam por si em suas inúmeras apresentações e entrevistas, deixando à mostra uma sensibilidade e inteligência exemplares que eram parte indissociável na composição de um dos artistas merecidamente mais populares do mundo. Numa das sessões da Mostra, o público aplaudiu entusiasticamente ao final da projeção, como se se tratasse de um show. Foi quase isso.
