A produção nacional Nas ondas da fé, de Felipe Joffily, é uma comédia repleta de possibilidades e caminhos abertos para o humor crítico – que parece ser o tom aspirado pelo filme – da situação do Brasil atual a partir da discussão da mercantilização da religião evangélica. Tem também um protagonista com comprovado talento para o humor, Marcelo Adnet. Mas, então, por que o filme parece não funcionar?
O primeiro problema que salta aos olhos e aos ouvidos é o roteiro assinado pelo próprio Adnet. As situações cômicas são rasas, não encontram respaldo num diálogo sagaz ou uma trama engraçadamente engendrada. Não seria tanto um problema se o protagonista/roteirista fizesse dessas limitações um trampolim para seu humor – em outras palavras, se o filme fizesse rir. Do jeito que está parece que faltou mais polimento no roteiro, mais esforço para ficar engraçado – pois limita-se somente ao potencial.
Hickson (Adnet) é um técnico de informática, mas meio que um faz-tudo para conseguir ganhar a vida. Ele é casado com a cabeleireira evangélica Jéssika (Letícia Lima, no mesmo tipo de papel que a consagrou no Porta dos Fundos e nunca mais abandonou no cinema). Tudo parece melhorar quando ele consegue emprego numa rádio evangélica.
Era para ser apenas uma espécie de contínuo, mas ele ascende – graças ao talento vocal – ao posto de rádio-evangelista, conquistando centenas de fieis e despertando a ira de um pastor mais experiente, interpretado por Thelmo Fernandes. O filme toma, então, alguns caminhos inusitados. Ao contrário de seus pares, Hickson começa a sentir-se culpado por enganar as pessoas. O alto escalão de sua igreja, ao contrário, está cada vez mais feliz com as conquistas financeiras dele.
Nas ondas da fé tem um alvo certeiro, mas sua mira é ruim. O humor aqui, apesar das boas intenções, não se materializa direito, as sacadas cômicas não acontecem, falta timing, falta um roteiro mais estruturado que agregasse melhor as piadas. Adnet, como sabemos, é mais inteligente e divertido do que se mostra nesse filme. O que sobra é uma crítica social rasa, que, no fundo, nem era exatamente o propósito do longa.
