07/06/2026
Drama

Mato seco em chamas

Nas quebradas de Bras[ilia, as irmãs Chitara e Léa, tocam um negócio “gasolineiro” - com a extração clandestina de petróleo de um terreno que abriga oleodutos. Sua rede de distribuidores é formada por motoqueiros. Nessa dura vida na periferia, lida-se com a ausência de Estado, a onipresença do crime, a perseguição da polícia, as igrejas evangélicas e o circuito musical popular-brega.

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Lançado internacionalmente na seção Fórum do Festival de Berlim e vencedor de sete prêmios no Festival de Brasília 2022, Mato Seco em Chamas aprofunda o estilo engajado de obras anteriores do diretor goiano Adirley Gomes - como Branco Sai, Preto Fica e Era Uma Vez Brasília. Aqui associado à codiretora portuguesa Joana Pimenta, Gomes injeta mais uma vez uma pegada documental nutrida pela realidade social, com um toque de ficção científica distópica.  
 
Numa trama impregnada de poder feminino, resgata-se a história de Chitara Joana Darc) e Léa (Léa Alves), duas irmãs raçudas que tocam um negócio “gasolineiro” - com a extração clandestina de petróleo de um terreno que abriga oleodutos, logo cercado pelas irmãs e defendido por elas na ponta das armas. Sua rede de distribuidores é formada por motoqueiros. Seu lema está fixo na bandeira que tremula no alto, em que se lê: “O petróleo é nóis”.
 
Nessa sua mistura de gêneros, o filme incorpora falas candentes dessas duas mulheres, estreantes atrizes naturais que, visivelmente, conhecem por dentro a vida na periferia, delimitada pela ausência de Estado, a onipresença do crime e a perseguição da polícia. Outros habitantes nesse universo são as igrejas evangélicas e o circuito musical popular-brega, moldando o retrato de uma realidade em ponto de ebulição, explodindo em contradições por todos os poros.
 
Em determinados momentos, a realidade pura e dura invade o filme, com trechos filmados em manifestações pró-Bolsonaro antes de sua eleição, em 2018, e também a partir de um incidente real com Léa que muda o rumo da filmagem, mas não a interrompe, mantendo esse diálogo orgânico entre realidade e ficção que é tão caro a Adirley.
 
Com sua energia, Mato Seco em Chamas coloca na tela a efervescência das periferias brasileiras, com o habitual espírito anárquico-demolidor pelo qual Adirley se tornou conhecido. Seu filme grita pela transgressão, pela saída dessa situação tão insuportável e acachapante - não só de Chitara e Léa, do país inteiro.
 
Em Brasília 2022, o filme levou os prêmios de direção, roteiro, direção de arte, trilha sonora, atriz (dividido entre Joana Darc e Léa Alves), atriz coadjuvante (Andréia Vieira) e ator coadjuvante (dividido entre os motoqueiros que compõem as sequências vibrantes da segunda parte).
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