Muribeca começa citando a abertura de Cem anos de solidão, de Gabriel García Marquez, traçando, de cara, um paralelo entre a Macondo do romance e Muribeca, o Conjunto Habitacional Muribeca, situado em Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco. Em seguida, um entrevistado, que citou o romance, comenta que Muribeca é para ele um lugar em que o fantástico e o real se encontram, visto que suas transformações na última década mudaram tanto o local que se tornou irreconhecível.
A causa dessas mudanças, como não poderia deixar de ser, é a especulação imobiliária. O documentário de Alcione Ferreira e Camilo Soares dá conta de um espaço em franca decadência, transformações irreversíveis que colocam de lado o aspecto humano em prol do lucro. Com uma fotografia esmaecida, assinada pelos diretores, temos um filme melancólico, que resgata a história de pessoas do bairro.
Inês, dona da livraria e papelaria que leva seu nome, conta que mora lá desde 1983. Ela admite ser uma espécie de psicóloga local, a quem todos vão procurar num momento difícil. “Daqui não saio, mas estão me tirando daqui aos poucos. Trocaram a letra da música, infelizmente.”
Há, no entanto, a resistência dos moradores e moradoras que lutam para ficar em seus apartamentos, num ambiente melancólico e abandonado. São histórias de luta e opressão, de Davis contra Golias da especulação imobiliária, que refletem histórias parecidas de diversas regiões do país – sempre periféricas.
Contrastando depoimentos e imagens do conjunto habitacional, o filme resgata imagens de arquivo dos próprios moradores – em montagens de peças teatrais, filmagens do local, festas. Vem à tela um colorido que contrasta com a tristeza das cores gastas do presente.
Com pouco mais de 80 minutos, Muribeca, às vezes, parece esticado apenas para chegar à duração de um longa. Há questões que se repetem, imagens que, mesmo sendo diferentes, são iguais e prolongam o filme mais do que parece necessitar. É claro que a dupla da direção está aqui à procura de um tempo próprio para narrar esse momento do conjunto habitacional, e é um tempo meditativo. Mas, na verdade, no presente se faz necessária a tomada de medidas urgentes.
