Levando uma vida marginal que é rejeitada por sua família, Julia procura viver sua paixão por motos roubando algumas delas. Um dia, se aproxima de uma trupe de rapazes que fazem acrobacias com motos em rachas e vivem de negócios ilegais numa garagem. O talento de Julia para roubar motos torna-a membro da trupe, para insatisfação de vários dos rapazes.
- Por Neusa Barbosa
- 18/04/2023
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Vencedor do prêmio Coup de Coeur na seção Un Certain Regard de Cannes em 2022, o longa de estreia de Lola Quivoron exala a energia e as contradições de uma certa juventude. Que, no caso, está sintetizada na figura explosiva de Julia (Julie Ledru), uma jovem marginal apaixonada por motocicletas.
Rejeitada por uma família que deplora seu modo de vida, ela arranca sua própria sobrevivência de golpes em que ela simula ser compradora de motos postas à venda em anúncios, apoderando-se delas quando os donos vacilam e a deixam testá-las. E um dia ela entra em contato com uma trupe de piratas do asfalto e se dispõe a ser a única mulher no pedaço.
Não é fácil ser uma mulher nesta turma de motoqueiros também marginais, agressivos e machistas, disputando seus rachas em acrobacias arriscadas no asfalto. Evidentemente, eles não aceitam a recém-chegada de braços abertos, mas Julia está acostumada a disputar seu espaço. Ela não engole um não como resposta nunca.
Domino (Sébastien Schroeder), o chefão do pedaço que está na prisão e de lá comanda tudo, vê em Julia uma oportunidade de ampliar os negócios, aproveitando sua habilidade para roubar motos que rapidamente são adulteradas pelos rapazes e vendidas a novos donos.
No roteiro de Lola Quivoron e Antonia Baresi (que participa do elenco como Ofélia, a única outra mulher de destaque), está em primeiro plano o retrato deste submundo, em que os jovens não compartilham nenhum sonho na vida a não ser suas amadas motos, arriscando-se em pegas que eventualmente custam ferimentos graves e a vida de alguns - caso de Abra (Dave Nsaman), cujo fantasma passa a habitar os sonhos de Julia. Estes sonhos da moça são, aliás, janelas por onde entra um toque de surrealismo e fantasia que dá tempero a um filme cuja estrutura é tão centrada num realismo quase metálico, assim como as motos.
Mulher de Domino, mãe de seu filho Kylian, Ofélia oferece outro perfil feminino, este de mulher oprimida, dominada à distância pelo marido criminoso e ciumento. É uma esperteza do roteiro que Ofélia e Julia se aproximem e criem uma espécie de aliança e troca que, de outro modo, Julia não teria condição de viver. O filme aloja muito bem esta estreita faixa de afeto, deixando para Mous (Ahmed Hamdi), um raro amigo de Julia neste mundo, o papel de testemunha ocular da cena mais intrigante, perto do final - talvez porque sua conexão emocional tenha sido um pouco além da que ela conseguira manter com outras pessoas.
É bom também que a diretora e sua corroteirista não derrapem em excessos de piedade ou recorram a qualquer julgamento neste retrato. É isto o que torna o filme tão interessante e permite a qualquer tipo de espectador habitá-lo pelo tempo de sua duração, por mais diversa que seja sua própria experiência de vida.
