Ainda não será dessa vez que o tão aguardado renascimento de Nicolas Cage vai acontecer. Não que ele esteja muito preocupado com isso, é verdade. Ainda assim, isso vem sido alardeado há anos e culminou em decepções recentes como O peso do talento. Em Renfield – Dando o sangue pelo chefe, ele até tenta, mas o filme joga contra.
Cage interpreta Drácula, mas não é o protagonista, um posto que cabe a seu assistente Renfield, papel de Nicholas Hoult. Como se sabe, na história clássica, o personagem é um agente imobiliário, que, após fazer negócio com o vampiro, é transformado em seu servo, alimenta-se de insetos e saí às ruas para capturar as vítimas cujo sangue será sugado por seu mestre.
O diretor Chris McKay, trabalhando a partir de um roteiro de Ryan Ridley e Robert Kirkman, coloca os dois personagens no mundo contemporâneo. Depois de mudar de cidade em cidade por séculos, eles se estabeleceram em Nova Orleans, onde, por acaso, Renfield vai parar num grupo de ajuda para pessoas com dependência emocional. A ideia era, inicialmente, era capturar presas para o chefe, mas ele se identifica com o discurso do relacionamento tóxico relatado pelas pessoas ali.
Dividido entre a lealdade forçada e a possibilidade se livrar de Drácula, Renfield começa a organizar uma nova vida, especialmente depois que conhece a policial Rebecca (Awkwafina), por quem se apaixona. Ela, por sua vez, está determinada a prender uma família de traficantes mafiosos responsáveis pela morte de seu pai, também policial.
McKay, que tem no currículo filmes como A Guerra Pelo Amanhã, investe numa combinação de comédia e sangue, e se perde em ambos. Renfield não tem o menor timing para comédia, confiando nos histrionismos, caras e bocas de Cage, como elemento de humor, e muito gore, que nem sempre faz sentido e acaba sendo totalmente gratuito.
Cage retoma a temática vampiresca, como no filme que fez sua fama, O beijo do vampiro, de 1988, no qual ele acreditava ter sido mordido. Renfield se espelha na grandiosidade de clássicos do gênero – ainda no começo, há uma clara referência ao filme de 1931 de Tod Browning, com Bela Lugosi. Mas McKay não tem elegância cinematográfica suficiente para atingir o mesmo nível e, assim, sem muitos recursos, dá-se por satisfeito em fazer o sangue jorrar – desperdiçando a refeição de muitos vampiros por aí.
