Nascida em 1760, a inglesa Grace Elliott (Lucy Russell) foi uma mulher de muitos amores. Entre eles, dois príncipes, um inglês, que se tornaria o rei George IV - com quem ela teve uma filha - e um francês, Philippe, duque de Orléans e primo do rei Luís XVI (Jean-Claude Dreyfus). Vivendo nessas companhias e no período de transformações dramáticas que produziram a Revolução Francesa, ela foi capaz de assistir a História passar diretamente sob a janela de sua carruagem. E, por muito pouco, não foi guilhotinada, junto com tantos membros da nobreza de cuja intimidade ela privou. Para Grace, as cabeças da aristocracia que passavam espetadas em estacas, nas ruas conturbadas dos tempos do Terror de Robespierre, não eram de cadáveres anônimos, mas sim de seus amigos e conhecidos.
Por esse ponto de vista especial, Grace tornou-se uma rara testemunha ocular dessa época que mudou radicalmente não só a face da França, país que ela adotou como seu, mas do resto do mundo. A centelha libertária acendida pela Queda da Bastilha incendiou a independência norte-americana e tantos outros movimentos anticolonialistas, como a Inconfidência Mineira. O mais inesperado, talvez, é que uma cortesã como ela tivesse o interesse em anotar suas memórias desses dias, como ela fez no livro Journal of My Life During the French Revolution, revelando um fino senso de observação humana, combinado a um inequívoco desprezo pelos vencedores da Revolução.
Madame Elliott era monarquista e via a política predominantemente pelo viés das relações pessoais. Mas não era ingênua nem inculta. Por isso, foi uma interlocutora sagaz do ex-amante, o duque de Orléans, com quem já rompera quando iniciada a revolução, mas de quem se manteve sempre uma fiel amiga - e vice-versa.
Compartilhando do horror da autora diante dos excessos daqueles dias e de seu ceticismo diante da política, o diretor francês Éric Rohmer não teme trair uma certa veia aristocrática, ousando desafiar uma certa unanimidade politicamente correta, especialmente em seu país, a favor da revolução fundadora dos ideais da própria República Francesa, Liberdade, Igualdade e Fraternidade, simbolizadas pelo branco, azul e vermelho de sua própria bandeira. Ainda que parte do público possa discordar disto, não há como negar que à história sobram inteligência, sensibilidade e rigor técnico.
Afastando-se do intimismo de sua série de Contos em torno das quatro estações, Rohmer é capaz de iluminar a discussão de uma época e fornecer elementos para olhá-la com distanciamento e sabedoria. Uma tarefa ousada mas digna de alguém como o sofisticado diretor, formado em Literatura Francesa e ex-crítico cinematográfico de alguns dos maiores órgãos da imprensa francesa, colega de François Truffaut e Jean-Luc Godard no Cahiers du Cinéma.
Se Rohmer, como Grace Elliott, pode ser visto com alguns como saudosista e, quem sabe, como reacionário pelos mais radicais, não se poderá jamais acusá-lo de superficial - nem à autora que inspirou seu roteiro, a bem da verdade. O filme é denso de observações aguçadas sobre as oscilações da política e seu pragmatismo, às vezes criminoso em nome de ideais que nem sempre se concretizam completamente e podem eventualmente não valer seu preço em sangue. Sobre isto, as opiniões sempre se dividirão.
Uma outra pequena ousadia que Rohmer se permite é, na idade avançada de 83 anos, lançar-se à experimentação com a câmera digital. Um grande achado é como ele resolveu o problema de recuperar a paisagem da França do século XVIII, reconstituída com grande fidelidade a partir de uma rigorosa pesquisa pictórica e reproduzida nos belos cenários pintados por Jean-Baptiste Marot, sob a supervisão do designer Antoine Fontaine.
