02/07/2026
Drama

Bem-Vinda, Violeta!

Há anos, o escritor Diego Parisi - também chamado "Holden" - comanda um concorrido workshop literário nas montanhas da Patagônia argentina. Um dia, ali chega uma brasileira, Ana, que luta para escrever seu primeiro livro. Logo ela vai descobrir que as dinâmicas de sua personagem, Violeta, estão profundamente misturadas às dela. No Canal Brasil.

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O diretor brasileiro Fernando Fraiha realiza, em Bem-vinda, Violeta, um suspense psicológico de alto quilate. Conta, para isso, com a base do romance A Cordilheira, de Daniel Galera, o cenário magnífico de Ushuaia, na Patagônia argentina, e um elenco afinado, no qual se destacam Débora Falabella e Darío Grandinetti - ele, premiado no Festival do Rio.
 
Na trama, Ana (Débora Falabella) é uma escritora que procurar deslanchar o projeto de um livro e se integra a um workshop nas montanhas argentinas, ao lado de outros autores. O comando está a cargo de um líder um tanto temperamental, Diego Parisi, que usa o codinome de Holden (Darío Grandinetti).
 
Holden também é um escritor, notável, entre outras coisas, por ter queimado supostamente todos os exemplares de seu último romance, La Residencia. Tendo ao seu lado estes alunos, alguns já retornando por mais de uma vez à atividade em comum, ele exerce um jogo de provocação, que visa extrair, do fundo de cada um, os sentimentos mais brutos e intensos. Como ele diz, as pessoas em geral preferem compartilhar suas transgressões e não suas fantasias - e nestas estaria a verdadeira definição de um indivíduo.
 
À medida que os dias passam, Ana e os colegas mergulham na dinâmica peculiar desta residência isolada do mundo, que pressupõe uma entrega completa, não só à escrita, como ao desnudamento das próprias emoções mais profundas, como uma espécie de terapia catártica. Assim, Ana vê confrontados, na descrição de sua personagem, Violeta, alguns de seus traumas mais escondidos, assim como os demais integrantes do workshop. Holden comanda tudo com uma atitude que mistura agressividade e um toque de afeto paternal - uma ambiguidade que serve sob medida ao magnífico ator argentino, sempre lembrado por sua atuação em Fale com Ela, de Pedro Almodóvar. 
 
Diretor que tem a seu crédito a comédia La Vingança, além da produção do infanto-juvenil Turma da Mônica - Laços, de Daniel Rezende, Fraiha arrisca-se naquele que é até agora seu filme mais ambicioso, num enredo que caminha à beira do abismo, com personagens que incorporam sua fantasia numa realidade que parece cada vez mais uma ficção descontrolada. Há um toque de terror nos destinos que alguns adotam e Ana não é exceção, ao misturar suas emoções às de Violeta, que assume cada vez mais sua posição de alter ego, estimulada pelo mestre.
 
Nada disso faria sentido se essa intricada fusão de ficção e realidade dos personagens na tela não fosse delineada por atores tão intensos quanto Débora e Darío, com a participação de um elenco coadjuvante que contribui para a verossimilhança, caso de Germán de Silva na pele de Viggo, o velho empregado da casa onde se realiza a residência literária.
 
Somadas todas as coisas, não se trata de personagens à procura de um autor, como sugeria Pirandello, e sim de autores inseparáveis de seus personagens - até o limite da vida e da morte. 
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