Olha pra elas, de Tatiana Sager, é um filme que forma uma espécie de díptico com outro documentário da cineasta, Central - O poder das facções no maior presídio do Brasil, aqui, dando voz às mulheres encarceradas e apenadas. E, dessa forma, revela histórias de vida marcadas sempre pela violência e injustiça.
O longa começa com um homem e uma menina em seu colo, em frente a um presídio mantando uma “conversa” à distância com sua mulher e mãe da menina, que está lá dentro. Depois ele conta para a diretora que também já esteve preso, também por tráfico, mas que agora se libertou disso e aguarda a saída da mulher da prisão. Depois dessa breve introdução, é que a câmera e a cineasta entram no presídio.
A maior parte das entrevistas acontecem na Penitenciária Feminina Madre Pelletier, em Porto Alegre, onde histórias de vida são contadas com muita emoção. Sager é uma diretora interessada no conteúdo humano, ouve com atenção e curiosidade esses relatos que trazem muitos elementos em comum: famílias desestruturadas, violência do pai/marido/namorado, envolvimento com tráfico e/ou drogas, e sempre a preocupação constante com os filhos que estão lá fora.
Entre os depoimentos das mulheres encarceradas, entram também profissionais que trabalham em presídios femininos ou na justiça. São vozes com muita lucidez e profissionalismo que acrescentam novas camadas de compreensão sobre a vida e o estado das presidiárias. Um dos destaques é a promotora Ivana Machado Battaglin. São dela algumas das falas mais contundentes do filme: “O que se percebe, na verdade, é o encarceramento da pobreza, e uma feminilização da pobreza.”
Um dos casos mais fortes é o de uma mulher acusada de ser cúmplice do companheiro que matou o filho do casal. No momento exato do crime, ela estava trabalhando. A justiça e o júri entenderam que ela foi negligente ao deixar a criança pequena com o homem e sair para trabalhar. Mas, como bem aponta a promotora: se essa mulher fosse um homem, que estava fora de casa na hora que uma mãe tivesse matado seu filho, ele jamais seria indiciado. Ou seja, além de tudo, a justiça, uma vez parte da sociedade, é machista.
Olha pra elas, como diz o título, olha para essas mulheres esquecidas pela sociedade. Sem qualquer espécie de julgamento moral, o filme se torna um espaço de libertação para as entrevistas que conseguem falar de assuntos espinhosos e traumáticos de suas vidas com sinceridade e, muitas vezes, chegando às lágrimas. Isso é, claramente, fruto de um trabalho sério e rigoroso da diretora, que se mostra disposta a ouvir, despida de preconceitos e descortinando a realidade subumana em que essas mulheres se encontram. É um filme doloroso de se ver também, mas muito revelador de como as mulheres pobres e (em sua maioria) negras sofrem mais um tipo de opressão e violência – com as quais a sociedade parece se importar ainda menos.
