Aos 61 anos, Tom Cruise é um fenômeno. Um astro do cinema que desfruta de uma popularidade intocada ao longo dos anos e que se mostra capaz de superar seus sucessos a cada filme, independente da franquia. No ano passado, ressuscitou Top Gun depois de 36 anos. Agora, emplaca a sétima encarnação de uma franquia que tem-se mostrado imortal em suas mãos, Missão: Impossível, que ele reinventa com vantagens a cada filme.
Um dos segredos é que Cruise e sua turma, como o diretor e roteirista Christopher McQuarrie, não esgotam todos os seus recursos nos efeitos digitais, por melhores que eles sejam. Numa boa forma impecável, Cruise arrisca sua própria pele sem dublês em algumas cenas, como quando salta num penhasco pilotando uma moto em alta velocidade - e seu público sabe e espera isso.
Nenhuma ousadia pode funcionar sem um roteiro decente e este sétimo capítulo mostra capricho neste quesito, em que o enredo centra-se na momentosa novidade do uso da Inteligência Artificial (IA). Desta vez, o inimigo do agente Ethan Hunt (Tom Cruise) é nada mais, nada menos do que uma misteriosa Entidade, uma perigosa expressão da IA, capaz de entrar em todos os sistemas digitais do mundo e colocar definitivamente em cheque tudo aquilo que ainda consideramos verdade.
Essa coisa fluida, capaz de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, tem um emissário, Gabriel (Esai Morales), um velho conhecido que tem uma dívida moral impagável com Hunt. E assim estarão os dois, um perseguindo o outro e vivenciando uma impressionante luta no topo de um trem em movimento que é uma das melhores sequências do filme - e que exigiu a construção de uma locomotiva especial de 70 toneladas e uma linha de trem entre as montanhas da Noruega para obter os resultados.
Equilibrando as referências modernas e nostálgicas, a tal Entidade pode ser controlada por uma chave de design bem antigo, dividida em duas partes que no momento estão separadas. Obtê-las é a missão de Hunt, novamente ladeado de seus inseparáveis amigos, Luther (Ving Rhames) e Benji (Simon Pegg). Mas as mulheres serão igualmente essenciais para Hunt, com a volta de Ilsa (Rebecca Ferguson) - que se apoderou de uma das metades da chave - e uma carinha nova, Grace (Hayley Atwell), que de agente secreta não tem nada. Na verdade, ela é apenas uma refinada batedora de carteiras que entra na história quando rouba o cara errado no aeroporto de Dubai - cenário de outra das sequências mais eletrizantes.
Por conta disso, Grace se torna, contra a vontade, parte da turma, protagonizando, ao lado de Hunt, uma das sequências mais aceleradas e divertidas, a bordo de um modesto Fiat 500 pelas ruas e escadarias de Roma.
A esta altura de sua vida, Cruise mostra-se competente para usar e dosar bem as referências e homenagens, com direito a uma sequência nas areias do deserto para lá de nostálgica das aventuras dos anos 1930, mas com armas pesadas que não deixam ninguém esquecer que estamos no século XXI. Se a sequência do aeroporto de Dubai não deixa de evocar a ficção científica Minority Report, sucesso passado do ator, a própria essência desta Entidade, uma expressão de IA que parece ter ganhado vida própria, pode ser vista também como um desenvolvimento do célebre computador HAL, de 2001 - Uma Odisséia no Espaço. Cruise e McQuarrie sabem, acima de tudo, ler a história do cinema e reinventar seus encantos. É disso que Missão: Impossível 7 é feito - e o faz muito bem.
