02/09/2026
Documentário

Por trás da linha de escudos

Partindo de entrevistas e observação, o documentário aborda o trabalho dos oficiais do Batalhão de Choque da Polícia Pernambucana na tentativa de compreender e humanizar esses miliares.

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Exibido em 2017 nos Festivais de Brasília e Cachoeira, o documentário Por trás da linha de escudos, de Marcelo Pedroso, teve uma recepção majoritariamente negativa, apontando principalmente a ausência de um lado mais crítico na abordagem do assunto: o Batalhão de Choque da Polícia, conhecido como BPChoque, de Pernambuco. “Diante do momento histórico que estávamos vivendo, nos pareceu impossível continuar veiculando aquele filme”, afirma o diretor na abertura dessa nova versão da obra.
 
Mesmo com a boa vontade e aparente nova consciência nessa versão de 2023, o documentário se mostra, no mínimo, ainda ingênuo em sua abordagem de uma questão tão complexa. Ao centro, a tentativa de compreender o Batalhão, não muito como uma instituição em si, mas como uma instituição composta de indivíduos, e, nesse sentido, adota uma observação de que os militares também são gente, mesmo que façam atrocidades sem questionar.
 
Num momento em que o país (e o mundo) vive tão polarizado, é até louvável que Pedroso queira compreender o outro lado – ele mesmo se assume de esquerda, assim como o filme. Porém, a abordagem superficial ainda compromete o longa. Por mais que o cineasta coloque informações de que estava presente numa manifestação em Recife quando o Batalhão interveio de forma violenta, ou outro episódio parecido, o filme se deixa levar pelo discurso dos militares de forma pouco crítica.
 
Aqui e ali, apontam-se talvez pontos de convergência. Pedroso tem acesso a bastantes momentos do Batalhão, e alguns de seus membros parecem se abrir sem restrições. Um deles, por exemplo, diz que alguma vezes se identifica com os manifestantes, mas está ali para cumprir ordens, então, irá disparar gás lacrimogênio ou fazer o que for necessário para dispersar as manifestações.
 
Agentes da ordem, os militares do Batalhão repetem exaustivamente os mesmos argumentos, e o filme os compra com ingenuidade. Editando o filme, Pedroso coloca lado a lado as fotos de um manifestante sangrando e uma mulher posando sorridente com os policiais. É, claramente, uma tentativa de lançar um olhar escancaradamente crítico a essa dinâmica dupla, mas, ao mesmo tempo, é tão óbvio, que é simplório, e pouco acrescenta.
 
Se, em 2017, tal filme era problemático, em 2023 é ainda pior. Passados quatro anos de governo Bolsonaro, que culminaram nos atentados de 8 de janeiro, Por trás da linha de escudos soa agora datado. Não como um registro histórico de uma época, mas como um resquício de uma visão anacrônica de um tema de enorme complexidade tomado simplesmente por um olhar de uma vertente popularmente conhecida como “esquerda cirandeira”, daquele tipo que coloca flores no cano de armas da polícia e espera que assim a violência deixe de existir.
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