Fereshteh veio do interior do Irã para Teerã para estudar na universidade. Mas engravidou e teve de criar a pequena sozinha, sem que sua família saiba de sua existência. Um dia, seus pais telefonam avisando que estão chegando para acompanhar um parente doente na capital. Então, a moça procura desesperadamente um modo de esconder a filha em algum lugar por uma noite.
- Por Neusa Barbosa
- 24/07/2023
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Neste que é seu segundo filme, o diretor e roteirista Ali Asgari demonstra um firme pertencimento àquelas melhores tradições do bom cinema iraniano que aprendemos a amar através das obras de Abbas Kiarostami, Jafar Panahi e Mohsen Makhmalbaf - ou seja, a contenção, o minimalismo dramático e também o olhar compassivo às inúmeras aflições que atropelam os caminhos das mulheres iranianas.
Tudo isso está contido no drama Até Amanhã, que teve sua première mundial na seção Panorama do Festival de Berlim 2022, sendo exibido em diversos outros festivais internacionais, inclusive a Mostra de São Paulo. Mas o filme, que se concentra num único dia e nas atribulações de uma jovem mãe solteira, Fereshteh (Sadaf Asgari), avança além. Ao acompanhar a vida desta moça, traduz-se a vulnerabilidade, a solidão e também a garra destas jovens iranianas, atormentadas por tantos percalços sociais e legais - o que evidencia a intenção de discutir politicamente a situação do grande país asiático.
Fereshteh é apresentada vivendo sua rotina, num pequeno apartamento, onde cuida da filha, uma bebê de dois meses, procura dar conta das tarefas domésticas e também de seu trabalho, como freelancer de design gráfico. Esse cotidiano já por si atribulado é sacudido por uma notícia repentina: os pais de Fereshteh estão chegando a Teerã nesse mesmo dia, para acompanhar um parente em tratamento médico na capital. E aí se descobre que a moça escondeu dos pais, moradores do interior, o nascimento da filha. Agora, ela corre contra o relógio para encobrir os sinais da presença da bebê, procurando desesperadamente um lugar onde a pequena possa passar a noite.
Essa trama única preenche todas as situações imaginadas pelo roteiro, assinado pelo diretor e Alireza Khatami, retratando as agruras de Fereshteh e sua única aliada, a melhor amiga Atefeh (Ghazal Shojaei). E aí se demonstra o engenho de Asgari e sua inspiração na tradição do cinema de seu país, colocando em foco as dificuldades vividas por gente comum num contexto que, como a vida real, é repetitivo e angustiante.
Todo tipo de solução é imaginada pelas duas amigas, que percorrem a cidade com a menina nos braços, carregando suas coisas, vendo, uma após outra, fracassarem suas tentativas de abrigá-la com alguém por uma noite. O próprio pai da menina, Yaser (Amirreza Ranjbaran), que queria que Feresteh tivesse abortado, é procurado como última possibilidade. Mas a solução que ele encontra cria novos embaraços para Fereshteh, confrontada agora com um médico que a chantageia pela falta de documentação da bebê (Babak Karimi, ator de filmes de Asghar Farhadi, como A Separação).
Contando com uma câmera na mão que acentua todas essas urgências, o filme deposita uma justa confiança na interpretação de sua protagonista, Sadaf Asgari, sobrinha do diretor, que se mostra capaz de sustentar no próprio rosto, sem palavras, toda a tensão da sequência final, em que ela, afinal, toma uma decisão forte, desafiadora e empoderadora.
