O documentário de Pedro Gorski resgata as figuras do casal Egon e Frieda Wolff, judeus alemães que escaparam da perseguição nazista nos anos 1930, construindo no Brasil uma trajetória inesperada, até para eles mesmos.
Depois de terem que abandonar suas pretensões de tornar-se ele advogado, ela economista, devido à violência dos nazistas dentro até mesmo das universidades em Berlim, a partir de 1933, Egon e Frieda tornaram-se comerciantes de materiais ópticos no Brasil. O país, aliás, foi escolhido por eles quando avaliaram que seria um daqueles com menor probabilidade de ser envolvido na guerra que se avizinhava.
O casal chegou a São Paulo em 1934, depois de um mês de viagem de navio. Egon ainda conseguiu trazer para o Brasil seu irmão e seu pai. Frieda tentou salvar os próprios pais, mas já não teve sucesso. Ambos morreram no Holocausto, assim como outros parentes e amigos de ambos.
Mudando-se para o Rio de Janeiro, onde acabariam se estabelecendo, Egon pensava em mudar de ramo, ter uma agência de viagens. Mas, finalmente, ambos acabaram iniciando uma inesperada trajetória como pesquisadores sobre a comunidade judaica, a partir de um ponto de partida mais inusitado ainda: as lápides de cemitérios. Usando as informações das lápides e registros em jornais, Egon e Frieda juntaram material suficiente para um livro, Judeus no Brasil Imperial, que foi publicado pela USP. E aí não pararam mais, escrevendo cerca de 60 livros apoiados no material levantado como pesquisadores autodidatas, recebendo inclusive reconhecimento internacional.
A história desse casal, que permaneceu unido desde 1933, quando se conheceram, até a morte de Egon, em 1991 (Frieda morreu em 2008, aos 97 anos), é mais do que admirável. Serve também como memória dos desvios causados pelo autoritarismo nos destinos de milhões de pessoas no mundo, mesmo que tenham tido a sorte de escapar do genocídio.
