Quando comemorava na rua de Varsóvia, em 1983, com o amigo Jurek, sua aprovação no ensino médio, o jovem Grzegorz Przemyk é detido com ele pela polícia. Violentamente espancado por recusar mostrar seu documento, Grzegorz morre dias depois. A partir daí, a luta por justiça de sua mãe, a poeta Barbara Sudowska, passa a ser sua obsessão. Enquanto isso, Jurek tem que esconder-se, porque é a única testemunha do crime.
- Por Neusa Barbosa
- 21/08/2023
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Baseado em fatos reais, ocorridos na Polônia em 1983, o drama de Jan P. Matuszinski tem o mérito de trazer à tona um tema dolorosamente atemporal - a violência policial como política de governo.
Em maio de 1983, a Polônia, ainda comunista, havia acabado de levantar a lei marcial. Mas o aparato repressor continuava ativo, em tempos em que o sindicato Solidariedade e a Igreja Católica opunham-se aos excessos do regime comandado pelo general Jaruzelski (Tomasz Dedek).
Uma pequena família de opositores ocupa o centro de uma tragédia. Barbara Sudowska (Sandra Korzeniak), uma poeta famosa, havia sido agredida num protesto realizado dentro de uma igreja - como resultado, teve um dedo quebrado pela polícia. Dias depois, em 12 de maio de 1983, seu único filho, Grzegorz Przemyk (Mateusz Górski), e seu amigo, Jurek Popiel (Tomasz Zietek), comemoravam na rua os bons resultados obtidos no ensino médio, que os qualificaria a disputar uma vaga na universidade. Seu comportamento atraiu a ira de policiais, que os prenderam, espancando barbaramente Grzegorz, apenas porque ele se recusara a mostrar seu documento.
Inesperadamente, Jurek, o amigo, acaba tornando-se a única testemunha do massacre do amigo, em que os policiais se alertavam mutuamente para visar o abdômen, para não deixar marcas. Como resultado da brutalidade, o rapaz, que dali a 3 dias faria 19 anos, morreu.
Baseado em livro do jornalista Cezary Lazarewicz, o roteiro de Kaja Krawczyk-Wnuk sustenta um drama apoiado no contexto político polonês da época mas personaliza os efeitos da história sobre seus principais protagonistas, de maneira a obter o engajamento dos espectadores, ainda que não familiarizados com a história recente da Polônia.
Há uma nítida preocupação no filme em ser preciso e contundente, visando alguns núcleos para desenrolar a história. Além da mãe do morto, uma personagem admiravelmente composta pela atriz Sandra Korzeniak, Jurek carrega o coração do filme ao encarnar todas as pressões e incertezas de uma posição arriscada e solitária. Ele tem que esconder-se por algum tempo e depois acaba tornando-se o centro da desestruturação de sua família, que é impiedosamente pressionada para que ele mude seu depoimento.
Mesmo dedicando algum tempo às reuniões burocráticas em que autoridades tramaram como abafar o caso da maneira mais sórdida, o filme não deixa escapar seu centro humanista e ético, deslocando-se entre os corredores de ministérios e as salas de apartamentos com a mesma desenvoltura. Ainda que longo, não querendo deixar de fora nenhum episódio crucial da trama, o filme não perde força, reservando uma pequena parte para o primeiro julgamento que tem o condão de destacar o peso do aparelho estatal para deformar uma realidade que, de resto, tornara-se evidente.
Longe de gerar conformismo, o fato de que até hoje não tenha sido feita justiça no assassinato de Grzegorz Przemyk - o caso proscreveu em 2010 - apenas deixa em evidência o quanto é preciso gritar ao vento histórias como essa, para que a memória delas não se perca. E que o mundo algum dia melhore.
