Diretor estreante no cinema, Edson Spinello (que tem no currículo novelas bíblicas como Rei Davi e Apocalipse) põe-se diante de um dilema em Mamonas Assassinas: O Filme. Como retratar um fenômeno cultural de meados dos anos de 1990 para uma geração do século XXI? Mais do que o audiovisual em si, a maneira como este é consumido mudou. E este filme parece direcionar-se mais à geração tiktok do que àquela que acompanhou a carreira meteórica e curtíssima da banda guarulhense.
Assim, este é um filme que acontece de forma rápida. Os planos são curtos, a montagem é estranha. Não se sabe se é proposital que tudo se atropele ou se foi feito o que dava com o material que o montador Rodrigo Daniel Melo tinha em mãos. O roteiro é assinado pelo novelista Carlos Lombardi, que não nega sua marca registrada, com homens descamisados todo o tempo e uma subtrama envolvendo uma mulher seduzindo dois irmãos.
O centro do filme é Dinho (Ruy Brissac), vocalista e a cara mais marcante da banda. Mas, sem fazer qualquer espécie de recorte, o filme tenta, em vão, dar protagonismo, em algum momento, a todos os cinco membros do grupo, composto pelos irmãos Sérgio (Rhener Freitas) e Samuel Reoli (Adriano Tunes), Júlio Rasec (Robson Lima) e Bento Hinoto (Beto Hinoto, sobrinho do guitarrista).
A narrativa move-se por caminhos misteriosos e inexplicáveis, tomando desvios que não fazem o menor sentido. Ao invés de concentrar-se na ascensão do grupo, envereda por caminhos nunca muito bem resolvidos – como quando uma namorada de Dinho, Adriana (Fefe Schneider), sugere que ele saia da banda e tenha uma carreira solo.
Outro grande problema do filme é sua visão das personagens femininas. Se por um lado, a banda era conhecida por suas músicas machistas e homofóbicas, o longa poderia muito bem contornar essa situação exatamente no desenvolvimento das personagens. No entanto, as as mulheres aqui ou são completamente tontas ou dissimuladas que querem perverter os garotos da banda. Há também o mau gosto de diversos momentos ao mostrar um avião cruzando o céu - talvez numa antecipação do destino trágico do quinteto.
Enquanto vários filmes já souberam como driblar com muita criatividade seus orçamentos limitados, isso não acontece aqui. Os cenários se repetem à exaustão: a cozinha da casa dos irmãos Reoli se torna o point do grupo, o mesmo bar se transforma em restaurante quando é preciso, e as ruas de Guarulhos também passam como ruas de Sorocaba quando necessário.
Talvez a falta de experiência do diretor não tenha permitido que ele evitasse tais problemas, mas o mais gritante mesmo é a falta de ritmo da narrativa, que segue um padrão de telenovela com excessivas repetições, diálogos rasos e situações pífias. Por mais que Brissac seja esforçado e parecido com Dinho, o filme nunca está a favor dele. Conhecido ator de musicais – que já interpretou Dinho no teatro –, ele teria a chance de brilhar nas cenas de palco, nas apresentações dos Mamonas, mas o diretor não tem ideia de como filmar isso. Há, quando muito, apenas uma música apresentada na íntegra num show. Quem não viveu a época, não conheceu a banda quando estava na ativa, vendo o filme é incapaz de compreender o motivo do sucesso – ou pode até duvidar que uma banda tão sem brilho tenha vendido um único disco, ao menos.
