Com uma forte carga no melodrama, Dogman trouxe o diretor francês Luc Besson de volta ao primeiro plano dos festivais mundiais, concorrendo ao Leão de Ouro em Veneza 2023. O veterano cineasta, que teve seu apogeu nos anos 1990 com filmes como Nikita - Criada para Matar, O Profissional e O Quinto Elemento, reúne o máximo de seu arsenal para criar um enredo ancorado num personagem fragilizado que extrai o que pode da vida não raro recorrendo à violência - mas sem perder a ternura.
Não tivesse por trás de si um ator tão qualificado e empenhado quanto Caleb Landry Jones, o protagonista, Doug Munrow, correria o risco de tornar-se uma caricatura. O que obviamente não acontece. Jones é capaz de resgatar várias nuances da humanidade de sua criatura, revelando seus traumas e escolhas, especialmente quando tem a escuta de uma ouvinte tão atenta quanto a psiquiatra Evelyn (Jojo T. Gibbs).
Escuta foi uma coisa com que Doug nunca contou, realmente, como fica claro nos flashbacks que expõem uma infância terrível, submetido aos abusos de um pai fanático (Clemens Schick), que num determinado momento o tranca numa jaula junto com seus cães.Mas são os cães, justamente, os melhores amigos de um menino (Lincoln Powell) que é capaz de sentir como eles. Esta conexão psíquica torna-se, afinal, a ferramenta de sobrevivência de Doug, que carrega uma sequela física como consequência de um tiro dado pelo pai.
Não há como deixar de sentir empatia por um homem como esse, ainda que se revele também que utiliza sua conexão especial com os cães para a prática de crimes, do furto de jóias ao assassinato de inimigos eventuais. A sobrevivência, para ele, residiu nessa existência clandestina, junto com seus cães, e também numa inusitada experiência numa boate de drags, em que Doug se apresenta em performances em que dubla Edith Piaf e Marlene Dietrich.
Num palco em que o show, evidentemente, reserva o lugar de prima donna a Jones, Jojo T. Gibbs ocupa com segurança o seu lugar como ouvinte privilegiada desta história de vida trágica, que ela pode compreender por ter sua própria parcela de experiências abusivas - ainda que nada do quilate das vividas por Doug. Por conta desses dois intérpretes tão dedicados é que o filme tem o seu interesse, ainda que não se possa negar seus excessos. É claro que um filme de Besson não se resumiria a uma história de fadas, nem de cachorrinhos, nem de mera redenção. Há momentos de extrema violência e escolhas pontuais do diretor que poderiam ter melhores resultados. Mas sempre o talento de Jones e Gibbs dá conta daquilo que se espera deles.
