Narrativamente, As Bestas, dirigido por Rodrigo Sorogoyen, faz um movimento bastante interessante. Começa pequeno, de forma quase intimista, para atingir proporções maiores, enfim, na reta final, tornando-se um estudo de personagem sobre o luto e a resiliência. Isso dá a ele uma força quase descomunal, do tamanho da premiada interpretação do francês Denis Ménochet, seu protagonista.
Ele é Antoine que, com sua mulher, Olga (Marina Föis), se estabeleceu na Galícia, onde plantam tomates orgânicos em sua pequena fazenda. O problema é que aquela é uma comunidade minúscula, por isso, muito unida, pouco disposta a receber gente de fora – especialmente que venham de outro país. Fora isso, a oposição de Antoine que bloqueou a instalação de hélices eólicas no lugar o tornou alvo de mais ressentimento.
O espanhol Sorogoyen, que assina o roteiro com Isabel Peña, apresenta isso de forma muito meticulosa. Primeiro, são apenas olhares de reprovação que Antoine recebe quando vai ao bar do povoado. Porém, aos poucos, tudo degringola quando a fazenda do casal começa a ser vandalizada por dois irmãos, vizinhos da terra dos franceses e criadores de gado.
Xan (Luis Zahera) e o irmão Lorenzo (Diego Anido) personificam a xenofobia, e criam um problema insolúvel. Eles não vão parar de infernizar a vida dos vizinhos, até que esses se mudem. Antoine e Olga, por sua vez, abandonaram tudo o que tinham na França, casa, amigos e a filha adulta, para se dedicar a esse sonho, de uma vida mais tranquila no campo.
Quando começa o embate entre os vizinhos, As Bestas se torna um filme de terror. Suas proporções, assim como a tensão, aumentam bastante. O roteiro é inspirado num episódio que aconteceu com um casal holandês há cerca de uma década. No filme, os estrangeiros são mais jovens, e alguns detalhes foram alterados, mas o centro de tudo se mantém.
É interessante como o filme coloca como vítima dos abusos um casal francês branco de classe média, ao invés de refugiados – as grandes vítimas de xenofobia na Europa. Nesse sentido, ao inverter os polos, As Bestas se torna uma espécie de vingança de classe, mas é bem claro que está do lado dos franceses - o que traz ao longa uma contradição muito reveladora. É muito fácil que os próprios europeus de classe média, vendo o filme, tomem partido do casal francês (e, sim, eles realmente, são as vítimas aqui), sem, no entanto, se dar conta de seu papel como algozes quando se trata de imigrantes pobres.
Conforme Sorogoyen revela as tensões entre os dois grupos, ele desconstrói os princípios da violência entre comunidades europeias. A grande cena do filme é extremamente desconfortável, e não faria sentido ser diferente. É a céu aberto, numa floresta, mas extremamente claustrofóbica. A partir daí, o filme muda de foco, colocando Olga ao centro, obrigando-a a lidar com as ações do marido.
O filme abre com o Rapa das Bestas, uma espécie de celebração que acontece em Sabucedo, também na Espanha, e consiste, metaforicamente, no confronto entre humanos e cavalos. Os animais que vivem livres na região das montanhas são capturados, e suas crinas e rabos são cortadas. As “bestas” aqui também são as feras – mas o filme se dá numa dicotomia bastante grande a ponto de não rotular quem são as feras, e quem são os supostamente civilizados. Nesse sentido, mais uma vez, como tantos outros longas, esse expõe o fracasso de projeto de civilização da Europa.
