03/06/2026
Drama

A matriarca

Depois de muitos anos sem dar sinal de vida, Ruth retoma contato com seu único filho, Robert. Os dois têm uma relação fria mas ele a aceita em sua casa, por conta de sua saúde debilitada. Ela e o neto, Sam, deprimido pela morte da mãe, terão um áspero aprendizado de mútua convivência. Nos cinemas.

post-ex_7

Girando em torno de relações familiares complicadas, o filme do sul-africano radicado na Nova Zelândia Matthew J. Saville extrai emoções delicadas e um humor ácido neste duelo entre uma avó (Charlotte Rampling) e um neto adolescente (George Ferrier).  

Ruth, a avó, foi uma mulher livre, uma fotógrafa que viajou o mundo todo e conheceu muitas paixões - a ponto de não revelar ao filho, Robert (Marton Csokas), quem é seu pai. Entre ela e este filho, as relações sempre foram tensas e não muito afetuosas. Na vida adulta, seus rumos se separaram por muitos anos. Agora na velhice, Ruth quebrou a perna e precisa de assistência, retomando contato com o filho.

Robert, por sua vez, tem relações mais do que estremecidas com seu próprio filho, um garoto colocado no colégio interno logo a seguir à morte de sua mãe. Não parece o melhor dos mundos esta convivência entre três seres tensionadas entre as próprias dores e a revolta mútua. Ruth e Sam, no entanto, não se conhecem e o ambiente que ela prepara para esta convivência logo se mostra uma verdadeira arena - especialmente quando Robert tem que viajar e Sam é encarregado de cuidar da avó, com alguma assistência de uma enfermeira, Sarah (Edith Poor), que costuma sumir em momentos críticos.

A personagem ácida de Ruth se nutre integralmente da própria persona de Charlotte, essa figura carismática e ambígua, capaz de passar da agressividade à ironia ou à fragilidade num átimo, sob total controle dela. É muito bom que um filme modesto possa se expandir a partir desse núcleo entre avó e neto às turras, já que retrata genuínas vivências de cada um - no caso dela, a vulnerabilidade depois de uma vida de aventuras, no caso dele, a depressão diante da ausência da mãe e da frieza do pai.

Nesse ambiente que poderia facilmente deflagrar uma história recheada de pieguice, a progressiva aproximação destes dois se dá de forma convincente, sem negar seriedade a temas como depressão, suicídio, envelhecimento. A qualidade da direção de Saville se dá pela forma sutil como calibra as emoções contraditórias do garoto e inverte no momento adequado o jogo de poder dela com ele em proveito mútuo.

Melhor ainda é que não se procure adocicar a imagem desta matriarca amoral, que bebe diariamente largas doses de gim e não faz segredo de suas opiniões nem de suas experiências. Perto dela, Sam é apenas um adolescente normal, carregado de mágoas, que recebe um tratamento de choque para parar de ter pena de si mesmo e buscar o próprio lugar no mundo.

Um personagem um tanto insatisfatório e que poderia ter sido mais bem desenvolvido é o de Robert, que perde feio na comparação com a densidade de Ruth e Sam, uma dupla que vai se tornando mais e mais envolvente para o espectador.

 

post