19/07/2026
Romance

Conto de Inverno

Num verão, Felicie se envolve com Charles, vivendo uma enorme paixão. Os dois se separam com a promessa de breve reencontro. Por um equívoco, os dois se perdem de vista. Cinco anos depois, a moça cria uma filha e está envolvida com dois homens: o intelectual Loic e o cabeleireiro Maxence.

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Em mais um capítulo desta sua inspirada tetralogia sobre as estações do ano, o cineasta francês Éric Rohmer instaura um inesperado calor neste Conto de Inverno (1992), cujo nome remete a uma peça homônima de William Shakespeare. Como nos demais capítulos da série, Conto da Primavera (1990), Conto de Verão (1996) e Conto de Outono (1998) , o diretor mostra que sabe fazer a mistura justa entre refinamento intelectual e divertimento, provando que não são antagônicos.

 

A musa inspiradora é a lourinha Felicie (Charlotte Véry). Na primeira parte da história, ela é vista num quente idílio de verão ao lado do atraente Charles (Frédéric van den Driessche). O casal se conheceu na praia e, ao voltar a Paris, troca endereços. Por um ato falho inexplicável, talvez o primeiro sinal de que seu espírito indomável tem ainda alguma dúvida sobre este romance, ela lhe dá o endereço errado.

 

Cinco anos depois, reencontra-se Felicie com uma filha da mesma idade, fruto da relação com Charles, que ela perdeu de vista. Agora, a moça, uma cabeleireira, divide seu coração entre o intelectual Loic (Hervé Fuic) e o dono do salão em que trabalha, Maxence (Michael Voletti), que está deixando a mulher por causa dela. São duas formas de amar inteiramente distintas e a intuitiva Felicie balança, sem ter ainda esquecido o romance com o sumido Charles, que ela agora idealiza.

 

Entregue a todas as formas de amar, Felicie parece dar razão a Charles, que naquele inesquecível verão, lhe dizia: "Você é imprudente, sabe?". Na verdade, ela é a mais pura tradução do desejo em estado bruto, a que não faltam a ternura e uma vontade invencível de viver o que há para viver em cada momento. É Felicie quem decide o rumo de seus relacionamentos, indo e voltando ao sabor de sua vontade, para desespero de Loic e a quase fúria de Maxence. Sem contar a velada censura de sua mãe (Christiane Desbois), que prefere abertamente Loic e acha que é tempo de a filha assentar um pouco.

 

Mas Felicie é tão encantadora que resistir-lhe, quem há de? Rohmer compôs aqui uma personagem feminina fascinante, interpretada com graça e suavidade pela atriz Charlotte Véry, que também pode ser vista como a radical cozinheira Pulcherie, em A Inglesa e o Duque, do mesmo Rohmer. Na seqüência em que explica o que afinal foi feito de Charles, Rohmer revela novas cores para o romantismo. E cria uma janela de resistência contra a mediocridade e a brutalidade de um cinemão dominado por explosões, inserindo personagens capazes de discutir Platão, Pascal e reencarnação numa mesa de jantar. Simples e delicado, um sopro de ar puro.

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