20/07/2026

Conduzindo Madeleine

O taxista Charles vive uma fase de angústias, preocupado com as dívidas que não consegue saldar, inclusive a de seu carro e ganha-pão. Ele pega uma longa corrida com uma senhora de 92 anos, Madeleine, a quem deve conduzir a uma casa de repouso. No caminho, os dois conversam e trocam experiências. Nos cinemas.

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Um dos sucessos de público do Festival Varilux 2023, o filme de Christian Carion apóia-se na simpatia inata de sua protagonista, a nonagenária Line Renaud. Ela transmite a dose certa de doçura e coragem para trafegar nas camadas de sua personagem, Madeleine, que logo prova que é muito mais do que uma velhinha tagarela, como dá a impressão no começo ao seu condutor, o motorista de táxi Charles (o comediante Dany Boon, entrando num registro dramático).

Charles está vivendo um dia difícil, atolado na preocupação com suas dívidas, inclusive do carro que é seu ganha-pão. Ele pega essa longa corrida com Madeleine, que vive um dilema bem mais extremo: está deixando definitivamente sua casa e indo viver numa instituição para idosos. 

Esse trajeto por toda Paris, então, tem para ela um sabor de despedida. Por isso, ela se dá ao direito de mudar o percurso algumas vezes, fazendo paradas em pontos da cidade onde viveu episódios cruciais de uma longa vida, a que não faltam episódios dramáticos. No devido tempo, Madeleine provará que é uma sobrevivente, e não uma qualquer.

Comprimindo seu tempo num único dia, o filme vale-se não só de incidentes ao longo do percurso como de alguns flashbacks - nos quais Madeleine jovem será interpretada por Alice Isaaz. É esta jovem quem vive os episódios mais emocionantes, como o fugaz romance com um soldado norte-americano de passagem, na II Guerra Mundial, do qual resultará o nascimento de um filho, Mathieu (quando menino, interpretado por Hadriel Roure).

Mais complicada será a experiência de Madeleine com um marido abusivo, Ray (Jérémie Laheurte), do qual resultarão os momentos mais duros de sua vida. Ao compartilhar destas experiências, o motorista começa a transformar-se. Seus dramas, embora sérios, não se comparam às tragédias enfrentadas por Madeleine, que sobreviveu a todas elas e ainda é capaz de lhe dar lições, mantendo o amor pela vida e um sorriso no rosto.

É certo que o filme é, em certos momentos, facilitador e busca emocionar seu público sem complicar demais a maneira como isso é atingido. Certamente, o diretor e corroteirista Carion busca reeditar uma espécie de magia comum aos filmes de Frank Capra, num registro mais moderno. E até consegue, por contar com um elenco dedicado - especialmente a veteraníssima Line Renaud, por quem somos capazes de perdoar eventuais escorregões na pieguice.

 

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