O humor corrosivo do cineasta romeno Radu Jude é conhecido dos admiradores, que seguem o rastro de seus filmes exibidos no Brasil, caso de Aferim! (2015), Eu não me importo se passarmos à História como bárbaros (2018) e Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental (2021) - este o grande vencedor em Berlim e lançado nos cinemas. Sua ironia ácida e sem sutilezas para o politicamente correto tempera suas crônicas sobre seu país, marcadamente políticas e pintando um retrato nuançado de inúmeras doenças sociais contemporâneas, não exclusivas da Romênia, aliás.
Sua protagonista aqui é a jovem Angela (Ilinca Manolache), uma assistente de produção sobrecarregada de trabalho, levando uma vida precária e estressante, na maior parte do tempo dirigindo seu carro no trânsito infernal de Bucareste - cujos motoristas, inclusive ela, disparam impropérios um contra o outro com uma velocidade muito superior ao desempenho de seus carros. Vivida com muita energia pela atriz, Angela torna-se facilmente um protótipo de mulher dos dias de hoje, espremida num mundo do trabalho insensível, subordinado aos interesses de vizinhos mais ricos da Romênia - e a definição do país como uma espécie de primo pobre dentro da União Europeia é, mais uma vez, lembrada por aqui, a partir do detalhe de que o atual trabalho de Angela é um projeto de filme institucional para produtores austríacos. Para relaxar, Angela cria para si mesma um alterego no Tiktok, recorrendo a um filtro que a transforma em Babita - um protótipo de macho devasso e desbocado que se torna uma caricatura cruel de toda a extrema desumanidade a que ela é submetida.
Às imagens em preto-e-branco desta Angela moderna, o diretor contrapõe trechos coloridos de um filme romeno de 1981, Angela Goes On (Angela Merge Mai Departe, de Lucian Bratu, que focaliza uma outra mulher perdida no trânsito, a motorista de táxi vivida pela atriz Dorina Lazar. Correndo em paralelo, a trajetória destas duas Angelas em busca de sobrevivência atrás de um volante, sofrendo ofensas machistas e procurando brechas para alguma vida pessoal, encontra seu sentido num momento do filme - quando a própria Dorina Lazar, hoje uma velha senhora, integra o elenco, vivendo a mãe de um dos personagens entrevistados para o projeto pesquisado pela jovem.
Que o tema deste projeto seja uma campanha de segurança no trabalho a partir de depoimentos de trabalhadores acidentados é mais uma ironia perspicaz do enredo, que não perde uma oportunidade de expor as inúmeras contradições do capitalismo selvagem que substituiu a ditadura comunista de Nicolau Ceausescu, derrubado e morto em 1989. Por isso, o universo corporativo, representado pelos austríacos, tendo à frente Doris Goethe (a atriz alemã Nina Hoss), é também impiedosamente dissecado em sua hipocrisia cruel e esnobe.
Nem por isso Jude pretende apresentar os romenos como meras vítimas de sua própria exploração. Em muitos diálogos, deixa bem claro que a Romênia também está sendo cúmplice de sua própria aniquilação - e ele, como todo seu humor, não parece muito otimista, ainda que prefira falar de tudo isso com um sorriso cínico no canto do rosto.
