Em Porto Príncipe, o foco está na relação delicada e contraditória que se estabelece entre uma velha senhora de origem alemã, Bertha (Selma Egrei), e Bastide (Diderot Senat), um imigrante haitiano que ela contrata para ajudá-la em serviços em sua chácara. O filme dá oportunidade para que se discutam o racismo e intolerância que cercam estrangeiros num novo território.
Diderot Senat, um imigrante haitiano verdadeiro que não é ator profissional - e venceu o prêmio de melhor ator em festivais como o Cine PE 2023 -, empresta ao papel uma verdade que ele traz no olhar, no corpo e na pele e é o grande trunfo do filme. Um tema como esse, ambientado num estado como Santa Catarina, marcado por forte imigração alemã e italiana, com população de maioria branca, sem dúvida remete a um tom político, que a direção não torna tão veemente, mas está lá. A narrativa encaminha-se mais a uma atmosfera intimista, retratando o choque que a presença do jovem negro traz à família de Bertha, notadamente seu filho.
Mesmo sem querer forçar o tom político, o filme se apropria desta intolerância que cerca seu protagonista por todos os lados, especialmente quando ele tenta libertar-se do vínculo um tanto ambíguo que o une à sua patroa/protetora - ela mesma imersa em tantas contradições. Por esse atravessamento de tantas questões candentes no Brasil de hoje, o filme merece atenção.
