Sob muitos aspectos, Sin Embargo - Uma Utopia, de Fabiana Parra, pode ser considerado um filme-manifesto. A começar por seu prólogo, em que o músico e compositor brasileiro Kleber Mazziero pronuncia em inglês uma enérgica declaração contra o embargo econômico que, há mais de 60 anos, pesa sobre Cuba.
Depois disso, o próprio Mazziero viaja até Cuba, transformando a comemoração de seus 50 anos de carreira como pianista num encontro não só entre países, como entre gerações. A troca se dá entre ele e um jovem virtuose do piano, Yasser Rascón Falcón, não tão jovem que não possa já ter-se tornado professor e convocado, por sua vez, dois joveníssimos pianistas, Liah Valdés e Angelo Jiménez, para a execução das sonatas dodecafônicas compostas por Mazziero.
O músico brasileiro, porém, não se limita a ensaios numa sala de concerto, nem mesmo a conversas com Yasser, Liah e Angelo. Engaja-se em encontros com outros músicos e professores cubanos, trocando informações e experiências sobre este país tão peculiar que é Cuba e com o qual o Brasil tem tantas semelhanças - a maior delas, a mistura étnica entre brancos europeus, populações nativas indígenas e negros africanos que está na base de duas das escolas musicais mais ricas e diversificadas do mundo.
Como um repórter, Mazziero pergunta muito e não só aos colegas artistas, como a populares nas ruas. Quer saber como funciona tudo - o abastecimento de produtos alimentícios, o provimento da saúde, os salários. É visível que tem simpatia pelos cubanos, mas não deixa de notar que há sinais de pobreza e dificuldades por onde se passa. Mas nunca deixa de lembrar as sanções contra Cuba, decretadas pelos EUA desde 1962. Lembra que Donald Trump, quando presidente, impôs mais 243 sanções contra o país caribenho, inclusive colocando Cuba na lista dos países que promovem o terrorismo. Joe Biden, que o sucedeu, seguiu na mesma linha. E isto tem seu papel na falta de produtos alimentícios nos mercados, tanto públicos quanto privados, de Cuba, bem como na dificuldade na obtenção de medicamentos, de muitos dos quais o país se vê forçado a fabricar substitutivos - quando isso é possível.
Essas carências são parte das conversas de Mazziero com seus interlocutores, mas muito mais se fala mesmo de música e das respectivas biografias - o loquaz músico brasileiro não se faz de rogado para contar a sua, em que ressalta nunca ter tido com um piano em casa e a atrofia na mão esquerda aos 11 anos, que liquidou sua esperança de uma carreira como pianista clássico mas o guiou na direção do piano popular.
Sem querer esgotar seus temas, nem ambicionar a grandes enunciados sócio-políticos, Sin Embargo… conclui-se com um final de abraços e também a continuação do manifesto do prólogo - encerrado com uma exortação a que os norte-americanos não votem em candidatos que não se disponham a acabar com o embargo a Cuba. Uma utopia, sem dúvida necessária, e nem um pouco descabida, já que a extinção do embargo já foi aprovada pela Assembléia Geral da ONU em novembro de 2023. Os EUA, porém, fazem ouvidos surdos ao clamor.
