03/06/2026
Comédia Drama

Aquela sensação que o tempo de fazer algo passou

Levando uma vida monótona e presa num relacionamento sadomasoquista sem graça, Ann tenta superar seus problemas e procurar novos relacionamentos. Nos cinemas.

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Dependendo de como alguém se aproxima de Aquela Sensação que o Tempo de Fazer Algo Passou, o filme pode ou não fazer justiça ao título. São parcos 88 minutos que podem parecer horas,  daí a sensação de que se poderia ter feito outra coisa. Ou então, mergulha-se no universo um tanto doentio da personagem, e se tem a sensação de ter feito algo nesse tempo que passou. Vai do gosto do cliente mesmo. 

Escrito, dirigido, protagonizado e montado por Joanna Arnow, o longa está longe de ser um exercício de ego. Pelo contrário, é um filme repleto de desprendimento por parte da artista, que assume uma personagem talvez impossível de ser feita por outra atriz. Ann é uma mulher de trinta-e-poucos sem muito rumo na vida. Entregue a uma relação sadomasoquista com um homem mais velho, Allen (Scott Cohen), infeliz no trabalho monótono, incompreendida pela família e sem amigos. 

Ann não é uma figura que, exatamente, se martiriza, embora pareça bancar a mártir subserviente em sua relação com Allen. Fica clara a lógica da dinâmica do sadomasoquismo, mas ela não deveria estar sentindo prazer nisso também? Parece que ela apenas se submete aos tratos dele para manter esse relacionamento, como faria com qualquer homem que mantivesse um relacionamento com ela. 

Essa dinâmica sai do quarto e parece pautar toda a vida de Ann, que aceita as mais variadas humilhações, nos mais variados graus, para se manter no trabalho, na família, na vida. Os pais (interpretados pelos pais verdadeiros de Arnow, Barbara Weiserbs e David Arnow) pouco se interessam por ela. No trabalho, é ainda pior. Ela ganha uma honraria pelo aniversário de um ano na empresa, embora já esteja lá há três. 

Arnow segue a cartilha do cinema indie americano, estabelecida nos anos de 1990, com algumas mudanças ao longo dessas décadas. Tudo é retratado com certo distanciamento e com uma câmera que raramente se dá ao trabalho de fazer closes. Talvez nem a câmera se interesse pela personagem. 

Finalmente, cansada da indiferença de Allen, na segunda metade do filme, a protagonista começa a procurar novos homens, para, novamente, cair em outras dinâmicas de humilhação e poder sobre ela. Até que tudo muda quando encontra em Chris (Babak Tafti) um sujeito legal, dócil e compreensivo. Mas ela resolve iniciá-lo em seus fetiches, e o romance toma caminhos inesperados. 

Arnow é uma diretora atenta na construção dos planos dos enquadramentos para transmitir na forma o conteúdo. Nesse sentido, o filme é bem resolvido. Mas o que, no fundo, ela quer dizer com tudo isso? O próprio sadomasoquismo, supostamente um elemento importante no filme, quer dizer o que? É uma diretora a se prestar atenção, de qualquer forma, pois com mais depuração pode trazer grandes filmes sobre os millenials. 

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