O cineasta cambojano Rithy Panh nunca se esquivou de lidar com temas políticos em seus filmes – especialmente nos documentários, como A Imagem que Falta e Túmulo Sem Nome. Por isso, não é nenhuma surpresa a densidade política de seu novo filme, Encontro Com o Ditador. O ditador, no caso, é Pol Pot, oficialmente o primeiro-ministro do Kampuchea Democrático, nome pelo qual ficou conhecido seu país na época de seu governo autoritário, entre 1975 e 1979.
Não é preciso ser profundo conhecedor da história do Camboja, pois Panh é bastante didático, não de uma forma maçante, mas trazendo explicações de fatos e pessoas que são importantes para a compreensão da narrativa - que parte do livro da jornalista estadunidense Elizabeth Becker, no qual ficcionalizou sua visita ao país asiático, ao lado de dois colegas, nos anos de 1970.
Na história, um trio de jornalistas franceses é autorizado a visitar o Camboja, conhecer o país, o regime marxista-leninista que o governava, e conversar com Pol Pot. O longa começa com a chegada de Lise Delbo (Irène Jacob), Alain Cariou (Grégoire Colin) e fotojornalista Paul Thomas (Cyril Guei), no Kampuchea Democrático. Cada um tem uma visão diferente do ditador e dessa visita. Lise é mais prática e profissional, Cariou espera conseguir privilégios por conta de sua amizade com Pol Pot (estudaram juntos em Paris) e Thomas é o mais cuidadoso.
Logo, eles, e o público também, percebem que a visita não é exatamente como esperavam. Vai levar algum tempo até poderem conversar com o político e, até lá, passearão pelo país, sempre acompanhados de um tradutor que serve de guia e uma pequena comitiva armada. O que se tenta mostar como um país de pessoas felizes, vivendo igualitariamente do mesmo modo, logo se revela nada mais do que a estratégia de propaganda do governo, marcado pela opressão, tortura e miséria.
Nada disso aparece de cara no filme, nem de graça. Pahn, que assina o roteiro com Pierre Erwan Guillaume, encontra uma maneira assustadora de desconstruir a propaganda política de Pot, mostrando, aos poucos e de forma sutil, como os entrevistados são coagidos a dizer coisas ou como o tradutor “traduz” o que acha positivo para que o Ocidente veja nas reportagens do trio.
Os jornalistas, que também não caem nessa história, logo começam a desconfiar e se tornam inimigos, embora Cariou prefira não acreditar que Pot seja um ditador sanguinário, especialmente por simpatizar com a revolução. Mas, como mostra o longa, a ideia de revolução no Camboja foi deturpada. Um povo que, supostamente, viveria na igualdade foi extirpado de seus direitos e garantias.
A narrativa se dá como um filme de suspense e esteticamente mantém o apuro e a inventividade comuns no trabalho do cineasta. Bonequinhos são usados em cenas nas quais a realidade é dura demais para encenação. Em outros momentos, imagens documentais são sobrepostas a imagens da ficção, criando um potente efeito de realismo.
O lado fortemente político do filme também discute a liberdade de imprensa, além da responsabilidade jornalística. Partindo da perspectiva pessoal de cada um dos três personagens centrais, com suas visões de mundo e do Camboja, Panh lega um filme em que a política parte do plano pessoal para discutir a universalidade dela.
