Foi preciso a passagem de 30 anos para que alguém se aventurasse a encarar de frente a maldição de O Corvo. A história, inspirada nos quadrinhos de James O’Barr, teve uma adaptação cinematográfica promissora exatamente em 1994, dirigida por Alex Proyas e estrelada por Brandon Lee - que morreu num acidente com uma arma em pleno set, antes de terminadas as filmagens, o que obrigou a que suas cenas suplementares fossem executadas por seu dublê, Chad Stahelski. Filho do mítico Bruce Lee, Brandon, aos 28 anos, parecia estar despontando para o estrelato, mas compartilhou com o pai a morte precoce.
As outras adaptações da história - O Corvo: Cidade dos Anjos (1996) e O Corvo: Vingança Maldita (2005), além da série The Crow: Starway to Heaven (1998/99) - não tiveram a mesma repercussão.
Agora, coube ao sueco Bill Skarsgard entrar na pele de Eric Draven, o trágico herói que encara a danação de sua alma além da vida para tentar salvar sua amada, Shelley (interpretada pela cantora britânica FKA Twigs). Com seu tipo longilíneo, do alto de seus 1,92 e com uma cara de príncipe triste, Skarsgard defende bem o papel no filme de Rupert Sanders, que mergulha no tom sombrio do enredo original e cria algumas sequências de violência gráfica no limite do suportável - como a encenada nas escadarias de um teatro de ópera na parte final.
Inevitavelmente, O Corvo é uma história impregnada de morte, já que parte do assassinato do casal principal - mas é de vingança e redenção que o enredo se alimenta, motivo pelo qual o intérprete do protagonista deve ser um ator capaz de suscitar empatia, pois terá, necessariamente, sangue nas mãos na sua empreitada justiceira. Skarsgard, que já havia mostrado talento, naquela altura perverso, para interpretar o maligno palhaço Pennywise em It: A Coisa e sua sequência, é esse intérprete, capaz de transmitir toda a dor que atormenta Eric e que só o amor por Shelly, de algum modo, redime.
Seu oposto é Nicolas Roeg (Danny Huston), o perverso por excelência, que negocia sua permanência neste mundo enviando para o inferno todas as almas inocentes que puder seduzir. Este é o antagonista que Eric persegue em sua jornada para a salvação de Shelly, orientada por Kronos (o ator francês Sam Bouajila), uma espécie de intermediário entre os mundos.
O trabalho de direção de arte, assinado por Guy Bradley e Pavel Tatar, aliás, é responsável por um dos pontos altos do filme, especialmente na ambientação desse mundo intermediário em que Eric encontra Kronos e se inteira de sua nova situação após a morte. Nessa interseção de linhas férreas cercada de escuro e aves agourentas, é possível acreditar que uma alma atormentada como a de Eric pudesse, afinal, encontrar sua missão e seu destino.
