Uma série de incompreensões e mistérios cercam a imagem dos ciganos - que, no Brasil, tem sua terceira maior população do mundo.
Tudo começa na lenda de como saíram do centro da Terra, que é contada por crianças, no início deste cuidadoso documentário de Naji Sidki. Encarando de frente o mito que cerca esta origem, os ciganos estariam fadados a nunca terem uma pátria e serem leitores da sorte. E aí está o primeiro desafio: como povos nômades, que não têm casas, podem manter sua cultura? Hoje, o desafio ainda é maior, devido à dificuldade de acampar, com o crescimento vertiginoso das cidades - onde, então, irão montar suas barracas?
Escalando diversos personagens para contar suas histórias, o filme constrói uma narrativa que ao mesmo tempo informa e tenta cativar quem assiste, num relato que incorpora muita música, uma das formas de expressão mais notáveis dos povos ciganos - ainda que mantenham em segredo as próprias línguas, como a chibe, da qual não existem dicionários, assim mantendo sua exclusividade - e também alimentando a desconfiança dos estranhos.
É uma história antiga a dos ciganos com o Brasil. Foram eles que trouxeram ao país os primeiros circos, já a partir do século XVI, com a etnia Calon. No Brasil, são três estas etnias: além dos Calons, também vivem por aqui os Sinti e os Rom.
A vida nômade, baseada em vários tipos de comércio e trocas, impõe outros desafios - como a existência entre eles de vários analfabetos, já que frequentar regularmente as escolas com estes constantes deslocamentos é quase impossível. Alguns costumes antigos sobrevivem, incólumes, como queimar todos os objetos pertencentes a um morto, incluindo sua barraca. Em compensação, como seria de se esperar entre povos que cultuam tanto a música, suas festas são peculiarmente animadas, como os casamentos e batizados, traduzindo uma forma de organização comunitária ao mesmo tempo muito rica e autocentrada.
O diretor opta por recorrer a algumas sequências reencenadas - como o incidente de músicos na estrada, com o ônibus quebrado, e o encontro com o circo, recuperando um pouco do sabor deste modo de vida tão peculiar e que sofre não poucos preconceitos. Nem sempre esta reencenação funciona organicamente, mas serve, de todo modo, a abir uma janela respeitosa para que se observe de perto a diversidade de uma das muitas comunidades que formam o Brasil, mesmo sem nenhuma ambição de esgotar o assunto.
