28/07/2026

O traficante Pablo Escobar decide importar da África hipopótamos para habitar seu zoológico particular, na Colômbia. Desde o transporte, cheio de perigos, os animais desembarcam no rio Magdalena, reproduzindo-se de modo assustador. Um deles, Pepe, reconta sua própria história.

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Não faltou ousadia ao dominicano Nelson Carlos de los Santos Arias, que escreveu e dirigiu Pepe, seu segundo longa e uma coprodução entre seu país, a Alemanha, Namíbia e a França, para imaginar a história de um dos hipopótamos, trazido à Colômbia pelo traficante Pablo Escobar. Acabou vencendo o Urso de Prata de melhor direção por um filme que se movimenta com toda a liberdade narrativa e formal para lembrar a história de um animal que se tornou um símbolo das contradições que marcam a região.Em parte, a história é contada do ponto de vista do animal, ouvido falando três línguas (espanhol africâner e mbukushu). E, para retratar esta história, incrivelmente baseada em fatos reais, o diretor vale-se de tudo: trechos documentais, animação, filme 16mm e muito mais, criando uma crônica acelerada e cínica de histórias de realismo mágico que muitas vezes ocorreram no continente latino-americanoNão é pouca coisa reimaginar um episódio inusitado como este, que coloca em foco não só a ação tresloucada do traficante, ao introduzir por capricho na natureza sul-americana um animal estranho a ela, que se reproduz rapidamente e se mostra extremamente predador - o que também não deixa de ser uma metáfora poderosa para os processos colonialistas que, vindos de fora, aniquilam os habitantes locais pela força. Assim como o crime organizado. 

Esta narrativa, impregnada de realismo mágico e de um sentido político, pode, aos olhos de alguns, parecer exótica. Mas vai muito além disso. É muito mais um filme ousado em sua proposta, que provoca o espanto, abalando as certezas do espectador e trazendo-o para o perigoso ambiente do rio Magdalena. Ali, o hipopótamo-mor e sua prole também se tornam a obsessão do pescador Candelario (Jorge García), o primeiro a avistá-lo e ter contato com seu poderio e também responsável por transformá-lo em mais uma lenda local. 

Se a história real de Pepe terminou com sua morte por um caçador, não se sabe o que ocorreu com os demais hipopótamos, espalhados pelo rio Magdalena e afluentes, aclimatando-se à América do Sul, sabe-se lá com que consequências. A lenda, portanto, não tem ponto final aqui.

 

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