O delicado segundo longa do jovem diretor japonês Hiroshi Okuyama remete ao minimalismo de um Yasujiro Ozu, ao retratar as discretas emoções e também as tensões de uma pequena ilha do interior do Japão.
A vida da comunidade é movida ao sabor das estações, particularmente os esportes a que se dedicam as crianças locais. Na temporada de verão, é o beisebol. Na de inverno, o hóquei para os meninos, a patinação artística para as meninas. Evidentemente, estes padrões de gênero, rígidos pela tradição, nem sempre são observados à risca. E o pequeno Takuya (Keitatsu Koshiyama) começa a interessar-se mais pela patinação do que pelo hóquei, em que ele é desajeitado e desatento.
O interesse de Takuya, que passa um longo tempo olhando as evoluções da menina Sakura (Kiara Takanashi) pela pista de gelo, não escapa ao treinador dela, Arakawa (Sosuke Ikematsu), um ex-campeão na modalidade. O treinador estimula os dois a formarem uma dupla e participarem da próxima competição.
Muito do filme se passa nessa pista de gelo, mostrando os movimentos dos pequenos mas também se dedica à ligação afetiva entre o trio, que escapa um pouco à rigidez habitual das relações entre os membros da escola.
Há um estilo muito particular, e muito japonês também, na maneira como se observa estas ligações entre o trio e se expõem os sonhos e expectativas das duas crianças em relação à patinação. Para Takuya, particularmente, um menino tímido e vítima de bullying por ser um pouco gago, a patinação é uma espécie de libertação, de expressão de um talento que ele desconhecia, o que lhe dá uma nova segurança e auto-estima. Para a menina, porém, que é extremamente habilidosa e um pouco vaidosa também, as expectativas são outras - especialmente em relação ao professor, que é gay mas mantém bastante discrição sobre sua vida pessoal.
A partir desse microcosmo, o diretor consegue montar um painel de afetos e uma análise de mentalidade particularmente aguda e sutil. E não se furta a tecer uma crítica incisiva à intolerância nesta porção final.
