04/06/2026
Documentário

Trilha Sonora para um Golpe de Estado

Indicado ao Oscar de documentário, o filme do diretor belga Johan Grimonprez resgata o espírito de 1960, quando turnês de jazzistas norte-americanos eram usadas pela CIA, a ONU e a Bélgica para ocultar sua conspiração contra Patrice Lumumba e a independência do Congo. No Belas Artes à la Carte.

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O uso do soft power dos jazzistas negros norte-americanos como cortina de fumaça para as macabras maquinações dos EUA, Bélgica e da própria ONU para impedir a real independência do Congo em 1960 está no centro deste pulsante documentário do diretor belga Johan Grimonprez - que declara suas intenções a partir de seu extenso título. O filme foi indicado ao Oscar de documentário. 

Mergulhando numa notável profusão de arquivos de várias procedências, Grimonprez resgata vigorosamente o espírito da época, ressuscitando personagens fundamentais daqueles dias em que vários países africanos se libertaram do longo jugo colonialista, passando a integrar a ONU. Ali passam a integrar um bloco não-alinhado ao lado de países asiáticos que começa a preocupar o imperialismo norte-americano, transformando-se numa das grandes batalhas da Guerra Fria.

Entre esses jovens países, estava o Congo Belga, negociando em 1960 a independência de um regime colonialista, comandado pelo rei Leopoldo II, que se mostrou um dos mais cruéis do continente. Na proa do movimento independentista, estava Patrice Lumumba, um jovem intelectual autodidata e comerciante de cerveja de 35 anos que demonstrou uma firme vocação para uma liderança apta a integrar um movimento pan-africano simbolizado pelo projeto dos Estados Unidos da África, então composto por Gana e pela Guiné, ao qual o Congo livre deveria somar-se em breve.

Estruturado pela hábil montagem de Rik Chaubet, o documentário expõe minuciosamente as afinidades entre esse movimento anticolonialista africano e o movimento pelos direitos civis que, na mesma época, agitava os EUA, coincidindo também com a vigorosa produção musical de alguns dos maiores expoentes do jazz de todos os tempos. Desfilam pelo filme momentos sublimes de Max Roach, Abbey Lincoln, John Coltrane, Thelonius Monk, Louis Armstrong, Dizzy Gillespie, Ella Fitzgerald e muitos outros, amarrando a tese do filme - que, através do recurso a inúmeros telegramas antes secretos, trocados entre autoridades norte-americanas, como o presidente Dwight Eisenhower, membros da CIA, autoridades belgas e o próprio secretário-geral da ONU, Dag Hammarskjöld, denunciando a conspiração para impedir a independência efetiva do Congo, liquidando o próprio Lumumba, assassinado depois de exercer apenas brevemente o cargo de primeiro-ministro de seu país.

Músicos de jazz norte-americanos, como Armstrong, Nina Simone e Gillespie, foram efetivamente levados em excursões pela África, inclusive pelo Departamento de Estado e outras organizações, sem dar-se conta de que sua presença era visada como disfarce para desviar a atenção destas operações secretas. Levado ao Congo em 1960, Armstrong logo depois ameaçou inclusive renunciar à cidadania norte-americana, adotando a guineense, assim que descobriu que sua presença no país foi planejada para encobrir as movimentações da CIA contra o novo governo.

Mergulhando neste material vasto e complexo, o filme tem, não obstante as minúcias, uma condução de thriller, em que o espectador pode ser levado a perceber as trágicas consequências para o Congo da eliminação de Lumumba. De todo modo, o documentário se refere a um momento na História em que os artistas, particularmente os negros, não se furtaram a mobilizações políticas - como a famosa invasão da sede do Conselho de Segurança da ONU, realizada por Abbey Lincoln, Max Roach, Maya Angelou, Rosa Guy e outros, em protesto contra o assassinato de Lumumba. Mais do que uma simples memória destes fatos, o filme é uma homenagem à bravura singular destes artistas.

Antes da indicação ao Oscar, Trilha Sonora para um Golpe de Estado foi premiado em Sundance 2024 com o Prêmio Especial do Júri da seção World Cinema Documentary por sua Inovação Cinematográfica; venceu também melhor roteiro e edição pela International Documentary Association; e Grimonprez recebeu uma indicação no Directors’ Guild of America. 

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